sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dia dos namorados


Para você que é homem, acorda cedo no dia dos namorados, tem toda uma programação arquitetada na cabeça de como será o dia. Vai primeiro lavar o carro, depois toma um banho de 10 minutos, tira a barba e corre pra casa da namorada. Se for mulher, vai ter que acordar mais cedo ainda e preparar todo o arsenal para a chegada do namoradão: depilação total, prancha/escova/alisamento no cabelo (pintar se preciso for), pintar as unhas... tudo isso antes dele chegar.

Ocorre então a troca de presentes. Ele nunca entende as necessidades da namorada e dá uma lingerie vermelho puta que grita "trepe comigo esta noite", um buquê de rosas e um chocolate em formato de coração com os dizeres EU TE AMO. Ela sorri, agradece, dá um beijinho nele e enquanto isso pensa: "Viado! Estou uma gorda baleia, não vou usar isso nunca, porque que ele não deu isso pra mãe dele? E o chocolate? Estou na dieta da VACA (comendo grama) há um mês e esse baitola vem e me dá essa droga de chocolate deliciosa. Jesus me conceda o prazer de emagrecer 10kg pra caber nessa lingerie. Ele quer ver meu cu mastigando essa calcinha, mas desse jeito ela não passa nem na minha cintura. E esse buquê de rosas? Amanhã eles apodrecem, pra quê que eu quero isso? LIXO!" Daí, ela entrega o presente dela pra ele, um kit numa cesta com uma caneca do time predileto dele, um perfume, conjuntinho toalha-sabonete-creme de barbear e uma carta romântica escrita à mão. Ele sorri, agradece, dá um beijinho nela e pensa: "Vadia, gastei fortunas com a lingerie e ela vem e me dá conjuntinho toalha-sabonete-creme de barbear. Com certeza o pai dela ganhou isso em algum bingo para idosos e ela roubou e está me dando. E essa colônia barata? E essa carta? Serve nem pra limpar o cu porque é duro demais e arranha. A única coisa que eu gostei foi dessa caneca do meu timão." Ou seja, não adianta, você nunca acertará o presente certo que o seu namorado quer ganhar. Se você perguntar talvez você acerte, porém quem é que pergunta qual o presente ele quer ganhar? Vai estragar a surpresa. E assim começa o grande dia dos namorados, ambos chateados com os presentes, mas iludidos com o que ainda pode acontecer de bom naquele dia.

E então rumam para o almoço do dia dos namorados. A cidade inteira resolveu se refugiar nos restaurantes. Se o cara estiver tentando agradar a garota ele a leva para o Self-Service. Fila quilométrica, comida gelada, preparada às pressas para suprir a fome insaciável do povão. Se você não for pro Self-Service você vai ter que ter rezado 10 terços e feito uma novena inteira nos 5 dias anteriores pra conseguir um canto pra se sentar e depois que se sentar conseguir um garçom livre pra lhe atender. Você escolhe aquele prato especial do dia dos namorados que custa 169.99 e chora sangue por dentro por causa do preço. Daí vem a pior parte, a espera. Duas horas depois talvez eles estejam preparando o seu prato. Com muita sorte o garçom não errará de mesa e entregará o pedido pro casal certo (são todos iguais). Pronto, agora estão alimentados finalmente.

Depois do almoço, tem aquele cineminha pra vocês ficarem mais juntinhos, poderem namorar um pouquinho escuro, aquele clima romântico... Chegando lá se depara com uma fila filha da puta. Bobagem, o que importa é estar junto de quem se ama. Enfrentam a fila bravamente e na hora de comprar ingressos pro filme Romance Eterno dos Amantes Apaixonados você descobre que acabaram os ingressos e que só tem ingresso disponível para o filme Guerra Infernal Sangrenta. Fazer o quê, já que estavam ali o casal topa assistir ao filme, o que importa é que possam namorar um pouquinho no escuro, estar juntos aquele dia. Entram na sala e se deparam com centenas de casais que tiveram o mesmo azar que você de chegar atrasado. Porém eles pelo menos estão juntos. Depois de 20 minutos de busca frustrada por assentos vizinhos o casal desiste e assiste ao filme distantes 9 cadeiras e 2 fileiras um do outro. O filme era uma chuva de sangue só. A quantidade de sangue jorrado durante o filme era desproporcional à quantidade de pessoas que atuaram nele. Aquele ali nunca ganharia um Oscar. E então o namoro no escurinho vai por água abaixo da pior forma possível, com casais se beijando ao redor e gritos e gemidos (não é isso que vocês estão pensando) de pessoas mortas na guerra do filme.

Ainda tem o jantar do dia dos namorados, será igual ao almoço, com a diferença que demorará mais ainda.

E pra terminar a noite, a passadinha no Motel. Logo na entrada, fila pra entrarem os carros. Está lotado lá dentro, então espere na fila pela sua vez. Parece Drive Thru, faz o pedido, pega e vai embora comer em casa, com a diferença que no motel você come o pedido antes de ir pra casa. E depois da espera você finalmente adentra aquele quarto. O cheiro de Desinfetante com Bom Ar para disfarçar o cheiro de sexo do ar. Sinto pena das arrumadeiras de Motel no dia dos namorados. Elas devem trabalhar muito, precisam fazer a mágica de desaparecer todos os vestígios do casal anterior para o casal precedente vir e aproveitar o fim do dia dos namorados. O casal faz o bem bom em uma hora e as arrumadeiras desfazem tudo em poucos minutos. Imagino elas entrando nos quartos correndo com vassoura, pano de chão, desinfetante, rodo... internamente elas gritam: xô AIDS, xô sífilis, xô herpes, xô DSTs, xô camisinha lotada, xô xô xô... Elas deveriam trabalhar com roupas impermeáveis completamente fechadas, ali se pega vírus até pelo ar. Prefiro trabalhar com radiação. E imediatamente elas correm embora do quarto, pois o próximo casal está chegando pra ocupar. Mas voltando para o fim do dia do casal... finalmente o momento tão esperado, a trepa básica de fim de noite no Motel. Ela doida pra que ele repare na depilação a laser que ela fez naquela manhã, que repare na calcinha engolida pelo cu que ela está usando desde o início do dia (deve estar toda assada certeza), que ele repare em qualquer coisa nela... O máximo que ele faz é tirar a roupa dela rapida e rudemente e soltar as palavras mágicas: GOSTOSA. Pronto! Ambos enlouquecem fazendo amor rapidamente, pois precisam terminar o serviço em 30 minutos (lembrando que a tabela de preços do motel aumenta em datas comemorativas). No final, a calcinha está imprestável para se usar novamente, o ato acaba tão rapidamente como começou e eles se arrumam como podem, pois o dono do estabelecimento já bateu na porta do quarto gritando CINCO MINUTOS. E então eles saem em disparada corredor afora. E a arrumadeira corre quarto adentro.

E assim acaba o lindo dia dos namorados.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

... e ela me faz tão bem que eu também quero fazer isso por ela...

* Ela já foi minha filha e gritou "A GALINHA POS UM OOOOOVO!", me impedindo de matar a galinha e me fazendo ter uma epifania. Afinal, ela tinha gerado uma vida e nós não poderíamos tirar a vida dela. Só Rosa Rolim entendia Clarice Lispector.

* Ela também chegou a ser uma princesa. Eu fui um porquinho que perdia a casa e ia morar na Aldeota. E tinha uma chapeuzinho vermelho e um bruxo chamado Malvadiel. E íamos nos apresentar para uma super platéia de crianças nossa super elaborada história. Não lembro de ter visto tanto público assim. Mas foi divertido, tirando a briga por causa das roupas.

* Ela era sempre o primeiro lugar da sala, alimentando minha frustração de segundo lugar desde que me entendo por gente.

* Ela respondeu a pergunta mais difícil do Hevertinho sobre Botânica (acho que era O que são espermatófitas), salvando minha equipe do fracasso total.

* Ela foi pra turma especial comigo. Tá certo que ela nem gostava do povo, mas eu acredito que eu era uma das pessoas que ela ainda tolerava. Apesar de neste ano termos tido nossa primeira briga, sabe-se lá porque. Sei que ficamos sem nos falar um tempo, mas no final tudo se resolveu.

* Mentira! No final nada se resolveu. Levamos bomba no vestibular. E eu acabei indo parar em outro cursinho. Passamos um ano separados, nos vimos praticamente 4 vezes durante o ano inteiro e eram encontros meio que distantes. Nada era como antes, mas eu acreditava que no final as coisas se resolveriam.

* Mentira denovo, as coisas não se resolveram no final, levamos outra bomba no vestibular. Mas finalmente eu pude voltar a estudar com ela. E então as coisas voltaram a se encaixar, voltamos a nossa amizade de com força.

* "Odeio seus amigos novos!" - frase dita pelo menos uma centena de vezes aquele ano. Conheci novas pessoas (maravilhosas por sinal), mas ela não queria de jeito nenhum que eu me apegasse a mais ninguém. Possessiva!

* Esperar ônibus nunca foi uma coisa divertida, mas esperar o 625 - Parque Manibura Borges de Melo com ela na praça do BNB era ótimo. E comer batatinhas fritas encharcadas de óleo do tio era ótimo também.

* E ela é a melhor interpretadora que existe. Interpretou a abertura de A Favorita, interpretou Do Sétimo Andar, interpretou Bad Romance...

* Ela me dava conselhos amororos, porque numa certa época acabei me apaixonando, não dizia por quem, mas ela lia pensamentos. E dizia que minha alma gêmea era outra, que um dia ainda terminaríamos juntos.

* E nossas famílias apostavam no nosso namoro. Acredito eu que até hoje eles ainda guardam aquela torcida. Um dia quem sabe...

* E ela tinha o Murilo e o Venâncio pra diminuirem a solidão dela. E ela ainda pensa que eu não ajudei a dá-los. Segredo: eu ajudei sim.

* Ela fez um M na minha cabeça quando eu passei.

* E no terceiro dia, Jesus não ressuscitou. NÓS RESSUSCITAMOS.

* Ir pra praia à noite pode até parecer o convite para a sacanagem... E era. Ela levava a canga, a gente se deitava em cima e ela começava a contar as coisas mais cabulosas que já tinha feito. E eu bolando de rir. E ela com ódio porque eu não contava nada.

* Viciei ela numa banda que estava com os dias contados. E ela me culpa eternamente por gostar de uma banda e nunca ter podido ir a um show deles.

* E daqui a exatamente 10 anos, dependendo das condições amorosas dos agentes envolvidos, ela estará gerando nosso filho.

* Ela me ensinou a encher o pneu do meu carro. E vive me chamando de barbeiro, mas pelo menos não fui eu que dirigi com o freio de mão levantado e com os faróis apagados em plena BR-116. Nem bati no estacionamento do Iguatemi. Ah claro, foi a parede que veio pra cima do carro...

* Ela é doida pra vir aqui pra casa, eu prefiro a casa dela, ela é doida pra ser igual a minha mãe, eu sou doido pela sobremesa da mãe dela, minha vó é a vó dela, ela me secretaria (ou secretariava) junto aos plantões do irmão dela (inclusive graças a ela poitei a formatura dele), ela é tia do meu afilhado...

* Passamos por tanta coisa juntos que poderia passar horas escrevendo. Mas vou ficar por aqui, pois preciso pensar em alguma coisa pra dar pra ela. Afinal, o analista de sistemas embaçou todos os meus presentes. Esses são apenas resquícios do que fomos, do que somos e do que seremos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sonata da Monotonia


E ela não tem muitas pretensões na vida. Agrada a ela o fato de ser uma profissional medíocre. Medíocre para muitos pode ser um insulto. Não para ela. Não pretende ser notada. Quer ser mais um parafuso que faz funcionar a enorme máquina. Não leva trabalho pra casa. O que deve fazer no trabalho faz no trabalho. Nem mais, nem menos. Nem elogios, nem broncas. E no final do expediente vai pra casa. Mora só. Não tem namorado. Apenas um cachorro. Ligeiro passeio pela rua com o cachorro. Anda o suficiente. Fez cocô, fez xixi, volta pra casa. No caminho nada demais. Bêbados e prostitutas. No aconchego do lar esquenta a comida. De ontem? Anteontem. Não importa. O gosto está tão ruim quanto no dia. A pia acumula mais um prato, mais um garfo. E a geladeira acumula o resto da comida. Vai pro banho. Sai do banho. Veste a camisa larga dele. O cheiro dele impregnado. Deita no sofá. Liga a TV. Fecha os olhos e torce pra dormir antes de 4 da manhã. Notícias, filmes, riscos. Tudo passa na TV. Só o tempo não passa. E o calor. Depois de horas ela se levanta. Prepara um banho quente. E um leite gelado. E volta a deitar. E na hora sagrada enfim desfalece. Sonhos. Pesadelos. 2 horas depois acorda. Telefone. "Alô? Não, não tem ninguém aqui com esse nome." Adeus son(h)o. Respira fundo e vai se arrumar. Não pode chegar atrasada ao seu trabalho medíocre. Tem de ser medíocre só mais hoje. Só mais um dia.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

24 HORAS


Os acontecimentos a seguir ocorrem entre 00:00 e 8:59 do dia 31 de maio de 2010.

00:OO
- O que ainda falta? Artrite Reumatóide, Cushing, Addison, Osteoporose, Osteoartrose, Diabetes, Artrite Idiopática Juvenil, Hiperprolactinemia, Tumores hipofisários e Câncer de tireóide. Ah, ainda é meia-noite, claro que dá tempo. Vamos concentrar e continuar.

1:00 - Hum, interessante essa tal de Artrite Reumatóide, uma poliartrite de pequenas e médias articulações, com rigidez matinal maior que uma hora, deformante, com nódulos reumatóides, podendo complicar com vasculite... Bacana. O que vem agora? Ah, Osteoporose... Ufa, terminei essa osteoporose, rápido, não perde tempo, Tumores hipofisários MODE ON.

2:00 - Eita dor nas costas feladaputa. E essa luminária ainda tá sem a luz (quebrei a lâmpada nova tirando da caixa), tô ceguin. Vamos continuar, falta pouco, Artrite Idiopática Juvenil... Que saco, não tem onde estudar isso, não tem no livro. E agora? Pula, Hiperprolactinemia agora... Putz, que chata essa matéria... e que sono. Falta pouco, paciência.

3:00 - O que será que está passando na TV agora? FOCO ERLON, DIABETES. Tô cheio de séries no laptop, podia descansar um pedacinho e assistir um episodiozinho de Grey's Anatomy. FOCO ERLON, DIABETES. Tá, Grey's Anatomy não que é muito longo o capítulo, mas The Big Bang Theory são só 20 minutinhos, não vai mudar nada e vai dar tempo de terminar a matéria. Vou só terminar esse parágrafo e... kkkkkkkkkk muito bom esse episódio, esse Sheldon é uma figura, mata-me de rir. Voltemos agora para Diabetes. Ow capítulo medonho.

4:00 - Então o que você perscreveria para um paciente com uma poliartrite com exame laboratorial de anti-CCP positivo? Insulina, pois é um corticóide que quando usado cronicamente pode dar Doença de Addison. Tumores hipofisários podem comprimir o quiasma óptico e resultar num hiperparatireoidismo. Isso pode ocasionar amenorréia, galactorréia e virilização, mas é facilmente tratada com rituximab. Tão bom saber que estou entendo toda a matéria. Apesar do cansaço vou continuar, está sendo totalmente efetivo esse estudo, vou só ali comer algo... Hm, ovos, com pão dormido (literalmente ele deve estar dormindo mesmo, a esta hora só eu ainda pelejo), queijo, manteiga, bolacha Cream Cracker, capuccino... Puta que pariu! Derrameu capuccino em cima do livro novo de Endocrinologia da biblioteca. Eita caralho! Perde tempo não, pula esse capítulo demoníaco de Diabetes. INFERNO!!!

5:00 - FUDEU! Não vai dar tempo, puta que pariu. Quem trata Osteoartrite? Quais os critérios diagnósticos do LES? Qual o adenoma mais prevalente na acromegalia? Tá tudo se misturando na minha cabeça. E não vai dar tempo de terminar a matéria (pra variar), vou tirar nota baixa (pra variar), vou passar o dia com sono. CACETE. E o pior. Tá chovendo, pra que clima melhor pra dormir? Ai ai ai, #putafaltadesacanagem. Vou folhear os livros pra ver se alguma coisa pula lá de dentro pra minha cabeça... Vaila, acordei, estava dormindo em cima do livro, até babei a folha do livro. Eita, o mesmo livro de Endocrinologia novo da biblioteca. Tinha capuccino, agora tem baba, vai começar o processo digestivo nas folhas, quando eu entregá-lo mais tarde vai estar todo corroído. Caralho, tá amanhecendo, tem jeito mais não.

6:00 - Pronto, chegou a hora de parar e admitir que eu vacilei, deveria ter estudado mais, não ter acumulado a matéria, ter assistido menos séries, ter saído menos e todo aquele papo de gente arrependida. MERDA! Não adianta nada se lamentar, é levar bomba daqui a pouco e se preparar pra próxima. Dessa vez eu vou mudar e estudar mais (Jura! Hanran, senta lá Cláudia). Relutantemente vou fechar esse livro e tomar banho. Passar a madrugada estudando, amanhecer com a certeza de não saber de nada, com as costas doendo, os olhos ardendo, só um banho gelado pra piorar mais ainda. Ah, e tá chovendo... Escovando os dentes... Tomando um copo de leite... Me arrumando... Ainda bem que parou de chover, não gosto de levar guarda-chuva, se perco celular sem ver nem pra quê, imagine guarda-chuva... Opa, o que foi isso? Uma gota de chuva? Não começa São Pedro, fica na tua e para de cuspir em cima de mim. Acho que ele ficou com raiva desse pensamento blasfêmico. Aos poucos começou a tertulha lá no céu. Só mais alguns quarteirões (5) até chegar à parada. Não vou correr, a chuva ainda tá fraca, dá pra pegar essa chuvinha bexta até lá. Só vou ter que tomar cuidado com esse livro, sim, o mesmo livro de Endocrinologia novo da biblioteca sujo de capuccino e baba e agora molhado pela chuva... Ufa, cheguei na parada, óculos invisualizável, cheio de pingos, camisa úmida, mas nada demais, agora é esperar o ônibus, ou quem sabe uma carona.

7:00 - Finalmente meu ônibus chegou, pelo menos não vou chegar atrasado à prova e essa chuva vai parar quando eu chegar lá. Lotado o ônibus. Tem coisa pior do que acordar cedo, num dia de chuva, pegar ônibus e ele vir lotado? Pior que isso só se você não acordar, igual eu, já que eu nem sequer dormi... É, viva o pensamento positivo (¬¬'), olha o toró maior do universo que tá caindo? Vou ficar aqui esperando essa chuva forte passar... Parece que ela não vai dar trégua, já são mais de 7:30 e essa chuva não passa, minha prova é pra ter começado já... E ainda tem esse livro da biblioteca pra cuidar, se bem que ele já tá tão sofrido. Posso até colocar ele na minha cabeça pra proteger pelo menos meus óculos dos pingos de chuva que me cegam... Pronto, é agora, a chuva deu uma aliviada, vou aproveitar que o sinal está fechado e vou atravessar a rua e ficar protegido na guarita em frente a faculdade. CORRE POBRE! E a chuva resolveu castigar nos 50 metros que tive que percorrer. Claro, reparei tarde demais que correr é pior que andar. Andando a gente pega chuva de cima, correndo a gente pega a chuva de cima e pisa com força nas poças do chão e elas sobem bem em cima de você, principalmente quando as poças passam do tornozelo (como era o caso). Enfim, cheguei ao destino meio molhado, mas o livro ainda conservava suas folhas, ele não tinha se desintegrado (ainda!). E o caos pela cidade. Os carros passavam com água na altura do pneu, um até parou no meio da rua. A correnteza cada vez maior, os carros jogando água pros lados. E foi quando eu vi o portão de entrada da faculdade. Água na altura do meio da perna, com direito a correnteza. Show, já que o livro da biblioteca estava já todo molhado, sujo de capuccino e de baba, eu bem podia tentar subir em cima dele e sair surfando. Era uma boa. E a prova já devia ter começado. E eu ainda tinha que percorrer o maior percurso de todos sem um localzinho onde pudesse me proteger da chuva... Não dá mais pra esperar, vou correr o mais rápido possível, talvez sobreviva. Chegando ao portão de entrada fui lutar contra a correnteza, ela me carregando, se não tivesse uma prova e um livro novo nas mãos eu me deitava agora mesmo nessa poça d'água e esperava ela me levar até sei lá onde. E a chuva castigando. Senti os olhares do povo sobre mim, senti a angústia deles, todos estavam torcendo para que eu sobrevivesse àquela epopéia, imaginei até eles batendo palmas para mim quando chegasse do outro lado com vida. Pra falar a verdade o povo deve ter rido muito daquela putaria toda, um idiota na chuva com um livro na mão correndo/nadando/sendolevado. Mas como dizia Murphy, ainda pode piorar. A chinela, não satisfeita com minha situação crítica naquele momento, resolve se soltar do meu pé e ser levada. Dei meia volta e corri atrás da chinela. Pelo menos agora eu estava a favor da correnteza, foi fácil. Dou um mergulho, alcanço minha chinela lá no fundo da poça e calço denovo. Recuperada a chinela e passada a fase "Piscina com correnteza" só me resta agora correr, correr muito... É, viva a minha boa forma, estou ofegante, atrasado para a prova, completamente ensopado. Tô com pena é desse livro aqui. Criamos toda uma história, um envolvimento, uma relação leitura-leitor holística, mas graças a Deus vou devolvê-lo. Ele é muito pesado para eu ter que trazê-lo novamente outro dia... Muito lindo, a biblioteca não está funcionando hoje. Deu goteira e os livros foram todos molhados. kkkkkk Pelo menos não foi só o meu que pegou chuva. Ruim é ter que levar esse livro deste tamanho de volta pra casa. Tomara que pare de chover.

8:00 - UFA! Ainda bem que a prova não começou ainda... Eita começou a prova... Caralho que prova demoníaca... Puta que pariu, que matéria é essa?... Eita, tem gente pescando... Hm, que sono bom... Existirá vida após a Medicina? Durante eu sei que não existe, mas e após? Acho que nem Jack Bauer sobreviveria a isso, ele prefere desarmar bombas, prender a máfia russa, descobrir traficantes de drogas, salvar o presidente dos EUA e salvar o mundo, do que passar por essa peleja. FOCO! Qual o tratamento do Lúpus mesmo? Octreotide?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pessimismo Adquirido


Pessimismo [De péssimo + -ismo] S. m. 1. Disposição de espírito que leva o indivíduo a encarar tudo pelo lado negativo, a esperar de tudo o pior. 2. Doutrina segundo a qual o mal predomina sobre o bem, valendo mais o não ser do que o ser.

Bem, hoje não tentarei comprovar nada, nem contarei história alguma, apenas mostrarei aos leitores uma faceta deste que vos escreve e falarei os motivos por ser assim, PESSIMISTA.

Primeiramente, para os otimistas de plantão que dizem que pensamentos bons trazem boas coisas... MORRAM! Por que vocês não pulam de cima do viaduto do Chá e caem na frente de uma caçamba de lixo? Esse negócio de pensamentos bons é coisa de livro de autoajuda, é papo de discurso de donos do poder, querem que tudo vai dar certo e que basta pensarmos positivo. Se pensamento positivo atraísse coisas boas bilhares de pessoas já teriam ganho na Mega Sena. Ou será que os apostadores da Mega Sena fazem suas apostas pensando: "Que bobagem, vou perder mesmo, mais alguns reais gastos com besteira, meu filho está com fome, minha mulher doente, minha família está falida, mas eu sei que não vou ganhar esse prêmio de X bilhões de reais e ainda assim vou gastar o dinheiro do leite."

Fora que um pensamento positivo pra mim pode ser um pensamento negativo pra outra pessoa. Então quem julga qual pensamento é melhor? Pelo mesmo exemplo: se eu quero ganhar na Mega Sena e estou pensando positivo, meu vizinho da fila com certeza está pensando que eu sou um fela da puta que vai concorrer pra tomar o dinheiro dele. Quem vai atrair a coisa boa? Quem pensa mais forte? Ou um pensamento negativo anula um positivo?

Dito isso, agora vem a melhor parte, as reais vantagens de se ser pessimista. Começo perguntando "e quem não gosta de surpresas?" Vamos lá conversar.

A regra é não esperar nada de ninguém. Tu acabou de conhecer uma pessoa e gostou de cara assim dela, tipo os astros estavam alinhados, as borboletas voaram dentro do estômago e os sininhos tocam quando você está perto da pessoa. OK! Tu começa a criar expectativas por aquela pessoa, torce pra dar certo vocês ficarem juntos, beleza. Vai formando toda uma imagem de vocês num futuro não tão distante, sonhando com casamento e filhos e velhice juntos. Porém, algo saiu dos rumos e a pessoa não gostou de você, ou ficou com você e depois te largou, enfim, os planos não saíram como planejado.

O otimista se decepcionaria, frustração gigantesca, chora, fica com raiva por ter criado expectativas em vão, tinha apostado tudo naquele relacionamento que não deu certo. Quem ele deve culpar por isso? A outra pessoa que não tava afim? Ela não era obrigada a querer, logo a culpa é do bobão otimista. Quem manda ficar elocubrando? Já o pessimista não, ele não esperava nada daquela pessoa, simplesmente gostou da pessoa, foi atrás e talz, mas sem pretensões, se der certo deu, se não der certo paciência. Não criou historinhas românticas na cabeça, nem tava muito ligando pro que aquela pessoa viesse a oferecer. Se não der certo ele vai saber lidar bem melhor com a situação do que o bobão do otimista, afinal já era o que ele esperava daquela pessoa. Caso dê certo é uma surpresa e como eu falei "quem não gosta de uma surpresa?" E isso me faz um ultra adepto da Lei de Murphy: se alguma coisa tem de dar errado ela vai dar errado certeza. Caso dê certo foi azar do destino.

Vão dizer que me decepcionei com meia dúzia de pessoas e que por isso criei esse mecanismo de defesa. Sim, acertaram. Quem gosta de se frustrar com as pessoas? Vão dizer que se eu continuar pensando assim nunca vou buscar meus objetivos porque já sei que vou fracassar. Não, erraram. Continuo buscando, porém sem pretensões. O que conseguir me surpreenderá de qualquer forma, pois eu não esperava conseguir, o que eu não conseguir seguiu apenas o curso natural das coisas.

E se disserem que eu tô revoltado vão tudin tomar no c***
^^
That's all.

domingo, 16 de maio de 2010

Ensaio sobre a hermenêutica da beleza e da feiúra: um estudo cartográfico de bases epistemológicas


INTRODUÇÃO: Visualizando seres humanóides e tendo conhecimento prévio de sua natureza biológica e necessidades fisiológicas torna-se de fácil entendimento o conceito de propagação da espécie. Em outras palavras, sempre há alguém desejando um outro alguém. O modo como se processa esse ato de conquista é cativante. Diversas são as maneiras de se chegar ao destino final. Uma delas foi teorizada por Carl Von Erlineu. Nessa teoria o autor expos um quadro típico da psicologia humana implícito em atitudes subliminares de comportamento diante de alguém cujo interesse fosse maior do que simplesmente a amizade. O teórico expunha situações onde sempre havia alguém de beleza incontestável em companhia de alguém de beleza duvidosa na luta por uma parceria amorosa, em outras palavras, o Bonito e o Feio andam juntos na busca de um bem comum, no caso alguém com quem eles possam ter um relacionamento futuro.

OBJETIVO: Analisar uma das teorias básicas da corte humana, a Teoria do Amigo Bonito e do Amigo Feio. Comprovar a veracidade dessa teoria. Teorizar sobre as possíveis causas desse fenômeno.

METODOLOGIA: Estudo exploratório analítico descritivo cujo explorador, através de uma observação não participativa, analisou comportamentos humanos diante de seres da mesma espécie quando no ato de conhecer um aspirante a um relacionamento futuro em potencial. O estudo foi realizado nos anos de 2005 até 2010 em calouradas da Medicina, shows, barzinhos e aniversários, com um grupo de 1000 duplas de amigos, um bonito e o outro feio, de acordo com o Critério de Beleza e Feiúra, contido no estudo de Marie Von Willebrand.

RESULTADOS: Em 67% das duplas formadas por Amigo Bonito e Amigos Feio, ambos os participantes das duplas atingiram o objetivo final, enquanto em 23% apenas o Amigo Bonito se deu bem, em 10% nenhum dos amigos se deu bem. Não houve relatos de casos onde apenas o Amigo Feio se deu bem. Em calouradas da Medicina a taxa de sucesso foi de 82%, em show foi de 50%, em barzinhos de 20% e em aniversários de 3%.

CONCLUSÃO: Devido a alto índice de sucesso comprovado nas observações de duplas de Amigos Feios com Amigos Bonitos comprova-se a veracidade da Teoria de Carl Von Erlineu. É até aconselhável se você se encaixa nos critérios de Beleza ou de Feiúra contidos no estudo de Marie Von Willebrand andar sempre com alguém de característica oposta a sua, pois sua chance de sucesso em tais festas é quase de 100%. Há que se ressaltar também que esse estudo foi feito nos lugares especificados na metodologia, porém pode-se estender-lo para qualquer outro agregado populacional onde hajam humanóides em busca de relacionamentos. Após extensa busca em artigos relacionados e extensa busca de sinais em comum com as duplas de amigos, desenvolvi uma teoria.

Teoria para explicar a Teoria do Amigo Bonito e do Amigo Feio: Amigos Bonitos andam com Amigos Feios porque quando vistos pela presa em potencial lado a lado sua beleza fica realçada ao extremo. Assim como amigos feios andam com amigos bonitos pois veem nessa situação a única oportunidade de terem presa empotencial bonitas por perto. Exemplificarei com uma situação de dois amigos um bonito e um feio e duas meninas (as presas em potencial).

Na cabeça do Amigo Bonito está: "Sou bonito, minha beleza está realçada pelo meu amigo feio, quem olhar pra nós dois vai passar mais tempo olhando para mim." Na cabeça do Amigo Feio está: "Sou feio, mas meu amigo é bonito, logo ele vai conseguir alguém bonito e eu vou conseguir alguem bonito que está acompanhando o outro alguém bonito que está com o meu amigo bonito." E na cabeça da menina está: "Olha que gato. Olha o amigo feio dele, tadinho. Vixi, a minha amiga está olhando para ele também, preciso agir rápido pois senão vou acabar com o amigo feio dele. Vou agarrar o bonitão." E assim a situação termina, com o Amigo Bonito pegando a menina, a amiga fica sobrando, se ela estiver desesperada ela pega o Amigo Feio, se ela não estiver desesperada ela fica amiga do Amigo Feio. Já o Amigo Feio ganha duas Amigas lindas. É uma relação onde todos saem ganhando, talvez apenas a amiga solitária não saia ganhando tanto.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O menino da bolha (parte III)


“Já chega dessa timidez, preciso fazer alguma coisa.” Na semana seguinte, lá foi ele todo confiante, abriu a porta, caminhou para a mesma seção de CD’s. Pegou um CD qualquer, foi até o balcão e jogou um saco com algumas notas de dinheiro dentro e saiu correndo da loja. Seu coração quase pára de bater na metade do caminho até em casa. Chegou em casa suado com o CD nas mãos. “Que merda! A moça deve achar que eu sou louco correndo daquele jeito.” E cada vez mais esse estranho sentimento o amedrontava.


Semana seguinte... Lá foi ele comprar outro CD. Pegou um CD qualquer da prateleira e entregou para a vendedora. Ficou de costas. Nem sequer olhou para ela. Ela sempre repetia o mesmo procedimento, embrulhava o CD com o papel da loja e o entregava de volta. E ele apenas jogava o dinheiro sobre o balcão e saía. E aos poucos ele foi aprendendo a lidar com a sua timidez, porém não conseguia falar com a vendedora. Era um passo muito grande que ele tinha que dar. E semanalmente ele escolhia um novo CD, a vendedora embrulhava, ele pagava e ia embora. E semanalmente também ele sofria de novos sintomas: cólicas, dores de cabeça, faltas de ar, dores nos ossos, vômitos, tosse, taquicardias, dores de ouvido...


Até que um dia ele resolveu vencer a timidez de uma vez por todas. “Já sei, vou comprar um CD, no saco de dinheiro eu vou colocar meu telefone e endereço.” E lá foi ele, saiu de casa com o saco de dinheiro nas mãos, pegou a rua de trás da sua casa, atravessou-a, entrou na loja, foi até a mesma seção de CD’s, pegou um CD qualquer e... ficou parado. Simplesmente travou. A idéia de vencer aquela timidez que há tanto lhe reprimia o deixou nervoso. Pensou em desistir várias vezes, porém seus pés não faziam nenhum movimento para levá-lo para fora dali. Simplesmente ficou ali, parado, por não se sabe quanto tempo. Começou a imaginar sua vida ao lado daquela moça, aquele nobre sentimento os unindo para sempre. Nunca tinha tido perspectiva de uma longa vida, mas diante daquela vendedora tudo era possível para ele, ela o fazia esquecer a doença, do quarto de vidro esterilizado, dos seus pais preocupados em casa, das suas limitações, dos médicos, dos exames, dos 15 minutos...


Olhou para o relógio: 25 minutos. Correu para o balcão onde a vendedora sorria para ele. E seus olhos se encontraram pela primeira vez. “Que olhos meu Deus!” Para ele já havia valido a pena estar ali atrasado. A visão dos olhos dela era melhor que qualquer visão que ele tenha visto durante todos esses anos que passou contemplando primeiramente os compartimentos da sua casa e depois as paisagens de fora. Nenhuma flor, ou pássaro, ou cheiro, ou som, ou brisa... nada se comparava àquele olhar. Tudo pelo que ele havia passado valeu a pena naquele momento. Todos os dias solitários em sua casa, todas as noites doente, todos os cuidados, os medos, as angústias, os sonhos adiados, os desejos reprimidos, tudo fez sentido naquele olhar. Rapidamente ele jogou o saco com dinheiro em cima do balcão e saiu em disparada para casa agradecendo a Deus por aquele momento.


No outro dia, logo cedo, a vendedora, antes de abrir a loja de CD’s, resolveu bater na porta da casa do rapaz. Uma senhora de preto atendeu a porta. Era a mãe do rapaz. Os olhos vermelhos e inchados denunciavam choro recente. Perguntou se ela era a vendedora da loja de CD’s e após acenar cabeça que sim a mãe do rapaz pediu para que entrasse. No canto da sala de estar, o pai do rapaz soluçava baixinho. A vendedora ficou sem entender. Olhou para a senhora de preto e perguntou onde estava o filho.


“Meu filho morreu... Ele não suportou a última noite, sofreu de inúmeras cólicas, feridas se abriram nas suas pernas, seus olhos foram aos poucos cegando, urinou sangue durante um tempo, até que seus rins deixaram de funcionar, começou então a sentir falta de ar, até que ele não agüentou mais e faleceu nessa madrugada. De todas essas dores, ele só queixava de uma. Da dor no peito por não poder ver os seus olhos novamente.”


E foi então que a vendedora desabou a chorar. Por 15 minutos, a mãe e a vendedora de CD’s choraram abraçadas. Depois daquele momento, a mãe pegou pela mão da vendedora e a conduziu até o quarto do rapaz. Foi então que a vendedora viu a morada dele. A arrumação impecável, o cheiro estéril, as cores neutras, as luzes artificiais... e aquilo a sufocou por um instante. “Como alguém conseguira viver ali por tanto tempo?”, pensou ela. Olhando para o canto do quarto, ao lado da cama, ela viu a escrivaninha dele com uma pilha de CD’s sobre a mesa. A pilha de CD’s que ele havia comprado na loja. Sequer tocara neles. E foi então que ela chorou mais ainda. Abrindo os embrulhos que ela mesma havia feito para ele com tanto carinho, ela tirava todos os bilhetes que havia escrito para ele, declarando todo o seu amor desde o primeiro dia que o vira do outro lado da rua. Do lado dos CD’s, cinco cadernos completamente preenchidos com declarações que ele havia feito para ela, desde o primeiro dia que a havia visto na porta da loja de CD’s.