quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Reclamando de A - Z

E no pior dia do ano cá estou com mais um post. Na verdade, por ser o pior dia do ano, já se imagina a qualidade disso aqui né. Não vai sair muita coisa boa. Na verdade só queria reclamar. Para os mais sensíveis melhor não continuarem a leitura, cenas muito fortes com linguajar vulgar está por vir.


a) Vou reclamar da tabela de números aleatórios que o professor deve ter usado para dar aquela nota pra mim. Pior é ficar me enrolando ao telefone, dizendo pra eu fa fa fazer a pro pro provinha. Qual será o tipo de retardo mental dele?

b) Vou reclamar da professora que acha que 0,085 é o suficiente pra dar uma cagada fenomenal no meu histórico. E ainda vem com aquela voz calma de astenia profunda. Cochilei cinco vezes enquanto falava com ela ao telefone.

c) Vou reclamar, aproveitando que falei de cagada, do cocô de gato no qual não pisei dia desses, mas que levei a culpa por ter pisado. Olhei no meu tênis e não tinha nada pregado, mas fui o bode expiatório da vez. Olhe se for pra levar culpa que seja por ter feito a coisa. Burramente eu não fui lá fora da sala e pisei num real tolete de gato, misturado com mijo, vômito, escarro, formol do laboratório de anatomia e uma pitada de jardineira com picadinho do RU. Aí sim, não negaria que o cheira era do meu tênis.

d) Vou reclamar do meu carro por não ter conseguido frear a tempo de bater em outro carro. Claro que a culpa não foi minha, obrigação do freio é parar o carro, se não parou então a culpa é dele, se o pneu tava careca então a culpa era do pneu, se a pista tava molhada então a culpa era da pista (ou da água por molhar), só não era minha.

e) Vou reclamar do carro que eu bati por ter batido em outro carro. Era pra ele ter mantido a distância de segurança do carro da frente pra evitar justamente isso. Fudeu com meu orçamento familiar, consertar três carros (incluindo o meu).

f) Vou reclamar do fato de isso ter acontecido a uma semana das minhas férias. Resultado: adeus férias. Não vou ter carro pra sair, nem dinheiro. Tudo bem que o dinheiro pra pagar o rombo não vai sair do meu bolso, mas com certeza também não vai entrar dinheiro nenhum no meu bolso nos próximos meses.

g) Vou reclamar do buraco que o meu corpo formou no meu colchão. Agora não durmo mais de cama, pois o colchão vira rede quando eu deito, se adapta completamente ao meu corpo. Quando amanheço todo entrevado tenho que sair de dentro de uma vala com muito esforço.

h) Vou reclamar da bateria do meu celular-que-faz-tudo. Ele canta, toca, dança, faz pipoca, faz cafuné, tira dinheiro do banco, lava louça, limpa banheiro, agoa as plantas, faz as compras da minha casa, me consulta, faz terapia comigo, me aconselha... ele faz tudo, inclusive ligar. É igual farmácia Pague Menos, vende tudo, inclusive remédio. Porém a bateria do meu celular só agüenta 24horas. Nem o meu Nokia 3310 modelo tijolão halteres de academia, era tão fraco.

i) Vou reclamar das minhas meias furadas e das minhas cuecas afolozadas. Se quiserem me dar meias que não estejam na promoção “Compre 5 pares e ganhe um ferro de passar da Wallita” já podem. Aceito até as Meias Vivarinas, aquelas que não são cortadas nem pelas Facas Ginsworld Class. Mas pela óstia consagrada meu pé é 43, achem uma meia decente que caiba num pé indecente desses. Digo o mesmo para as cuecas, o elástico delas está pouco resistente. Tem uma que eu só uso porque já é de estimação, mas não segura mais nada, e ainda deixa um mondrongo disforme na frente enquanto a borda da cueca fica em formato de ondinhas.

j) Vou reclamar também da falta de espaço no meu quarto. E não é porque eu sou bagunçado não. Daqui a pouco tempo, pra entrar algo ali vai ter que sair outra coisa. Eu já nem me considero mais dormindo naquela cama daqui há seis meses. Vou pra sala. A cama já está semi ocupada, atualmente durmo na metade dela. Já quero um puxadinho no meu quarto pra jogar minhas tralhas.

k) Vou reclamar da privada do meu banheiro que não pára de pingar. Daí vem o meu pai e diz que eu cago muito grande e que por isso entope. Desculpa se eu ainda não aprendi a lendária técnica de fatiar a bosta pra facilitar a vida da descarga.

l) Vou reclamar da falta de tempo pra estudar pra toda e qualquer prova da faculdade. Não venham budejar no meu ouvido e dizer que é porque deixo a matéria acumular. Desculpa se eu tenho vida social. Pior é quem não tem vida social e ainda assim não consegue terminar a matéria. Morram.

m) Vou reclamar daquele aspirante a halterofilista da minha academia que fica gritando enquanto levanta peso. Se não pode com os pesos que carrega então não coloque ora porra! Pior é ficar gemendo feito uma porca no cio. Fora que fica todo suado se esfregando nos aparelhos. Nem autoclavando esteriliza aquela gosma. E ainda atrapalha a gente, pedindo pra ajudar a levantar os pesos com ele. Ô vontade que eu tenho de soltar sem querer a barra na cara dele. E digo logo que se alguém se identificar com isso eu nego até a morte que fui eu que escrevi.

n) Vou reclamar da minha internet à lenha. Lerdox. Ver vídeos no Youtube é uma lenda. Baixar seriados é uma ilusão. Já até tentei deixar baixando de um dia pro outro, laptop ficou lá, ligadão na tomada a noite inteira, quando acordei empolgado pra ver o que tinha baixado, descubro que a internet tinha caído. O nome disso é sabe qual? Acha pouco. Se o próximo presidente quiser fazer um projeto Bolsa Velox eu acho digno. Já tem o meu voto.

o) Vou reclamar do Cid Gomes. Claro que não poderia de deixar de reclamar dele que tanto fez pela minha Universidade. Vocês estão entendendo a minha ironia ou eu vou precisar colocar isso ¬¬ ? Se ele quiser entender que ele é governador do ESTADO e que por isso precisa investir na educação do ESTADO, tipo na Universidade ESTADUAL do Ceará, seria bom. Não fez nada pela UECE. Tomara que ele se afogue no Aquário que ele planeja construir.

p) Vou reclamar da falta de absurdo do Instituto Superior de Ciências Biomédicas por ter nos expulsado de uma das salas de lá. Mas calma, vamos para outro bloco que vai ser construído com toda infra-estrutura necessária para que possamos ter aulas com recursos de datashow, ar-condicionado, paredes isoladas, cadeiras acolchoadas... Hanrãn, senta lá Cláudia.

q) Vou reclamar do meu plantão que está mais parado do que a pedra que havia no meio do caminho. Residentes de greve, staffs não descem pra atender ninguém, fico boiando feito merda n’água. Se quiserem salvar o povo já podem viu.

r) Vou reclamar do frio que faz na residência médica de madrugada. É um martírio dormir naquela geladeira, posso dormir 10 horas da noite, mas ainda acordo como se tivesse dormido muito pouco, pois fico me acordando de 10 em 10 minutos por causa do frio. Acho digno desligarem o ar-condicionado enquanto eu estou dormindo.

s) Vou reclamar de datas onde todo mundo fica numa felicidade questionável desejando tudo de ótimo pra você. A saber: Natal, Ano Novo, Aniversário e Dia dos Namorados. O discurso é sempre o mesmo: felicidades, sorte, saúde, paz, blá blá blá. Já posso ter abuso disso? Por que ninguém surpreende tipo “vamos para um cabaré”, “vamos beber até morrer, eu pago”, “desejo que você tenha 12 mulheres, uma pra cada mês do ano pra não enjoar”, “pega a chave do meu carro, pode sair nele hoje e voltar quando quiser”? Se quiserem ousar comigo estou topando.

t) Vou reclamar das minhas caspas que não largam da minha cabeça nem com xampu anti-caspa. Já cortei o cabelo no zero, já usei uma loção que tinha cheiro de bosta de vaca misturado com o suor do halterofilista da academia (vide letra m) e nada resolveu. Tenho é vergonha quando vou cortar o cabelo e vejo as expressões faciais do cabeleireiro do tipo “que demônio de farinha é essa no cabelo dessa criatura?”.Se alguém tiver um produto bom que ajude eu agradeceria.

u) Vou reclamar da minha indecisão, insegurança e incerteza (nem sei se querem dizer a mesma coisa). Não carece de explicação.

v) Vou reclamar até da Lorena Simpson e suas músicas viciantes. Ela deve ter feito pacto com o demo, porque eu não consigo mais parar de ouvir essas músicas. “Free to live, live my life, now I’m letting all behind.”

w) Vou reclamar das minhas mazelas, tipo meus olhos problemáticos, minha epilepsia parcial simples, minha CMAFM (Carência Múltipla Aguda Fatal Maligna), minha bipolaridade, minha demência supra-cortical, minha enxaqueca, minha catarrocefalia, dentre outros que não vale citar aqui. Se o Criança Esperança me conhecesse faria um show só em prol da minha saúde. Teleton já tentou me ajudar uma vez.

x) Vou reclamar dos meus pêlos corporais. Podem crescer, mas se quiserem crescer mais devagar já podem. Meu estilo Tony Ramos não me agrada, prefiro estilo Gianecchini (comentário gay, não?).

y) Vou reclamar das minhas reclamações totalmente sem sentido, vocês são muito pacientes por chegarem até aqui. Deus é mais, chagas open.

z) Vou reclamar finalmente da porra desse alfabeto com tanta letra. Caralho! Quase não acabo essa bosta aqui. Fui.


Parabéns para mim! ¬¬’

sábado, 24 de julho de 2010

10 Dicas de Como Ser Uma Boa Outra

Falarei hoje sobre a sina de ser O(A) OUTRO(A), ou o(a) amante, entendam como quiser. Para ficar mais claro, tratarei de um caso entre um homem, sua esposa/namorada e a outra, do ponto de vista da outra, mas se estende para os outros casos, dois homens e uma mulher, três homens, três mulheres, quatro, cinco...


1. Não ligue jamais. Se ele quiser algo com você não se preocupe, ele ligará. Ao ligar, você poderá estar gerando uma situação de desconforto entre ele e a namorada. Imagine se você liga e ele está com ela, vai gerar a famosa pergunta "Quem é?", então ele terá que mentir para a namorada, o que trará transtorno, constrangimento, enfim. Mesmo que você sinta necessidade de falar com ele não ligue. Se distraia, ligue pra mãe, pra amiga íntima, coma sorvete (80% de chance de você melhorar com este método), chocolate, saia com amigos, fala qualquer coisa que distraia sua atenção dele.

2. Crie códigos. Como é muito difícil seguir a regra acima, invente um código para que seja dito ao telefone de modo que a pessoa que esteja acompanhando ele não desconfie que ele esteja falando com uma outra, no caso você. Algo bem simples, que surja rápido na mente logo de cara. Tipo: Alô? Oi, sim, minha sala está fazendo calor mesmo, conserte a central de ar-condicionado. Tchau. Pronto, no calor que faz hoje em dia, falar sobre calor é algo super natural. Esse foi apenas um exemplo, mas pode ser apenas uma única palavra que quando dita numa frase possa gerar o seu entendimento de momento inoportuno. Se você conseguir estabelecer apelidos para as pessoas pode até ousar conversar ao telefone. Alô? Sim, estou com a cabeça nas nuvens (cabeça nas nuvens = namorada/esposa), mas prometo que assim que chegar em casa eu vou procurar resolver esse problema (resolver esse problema = ligar pra você), daí a gente poderia até conversar melhor sobre a relação entre nossa sociedade (relação entre nossa sociedade = sexo).

3. Esteja sempre disponível. Já que você não pode ligar pra avisar quando você poderá se encontrar com ele então você estará a mercê da vontade dele. Quando ele quiser você vai ter que querer também. Dê seu jeito, saia do cabeleireiro com tinta no cabelo, saia do supermercado com metade das compras por fazer, saia da balada a hora que for morta de bêbada para ir pra casa dele, termine seu cocôzinho rapidamente e corra pra lá... Não perca a oportunidade que ele está lhe dando de se encontrar com você. Aproveite.

4. Ande sempre com o celular por perto e carregado, afinal você não vai querer perder a hora que ele ligar. Não importa a hora, manhã, tarde, noite, madrugada, em casa, no trabalho, no aniversário do sobrinho, na boate, quando estiver comendo, quando estiver bêbada, quando estiver fazendo cocô (denovo o cocô na história)... Toda hora é hora para ele ligar e você terá que estar preparada para atender o telefone e já ir se preparando para correr para o local escolhido. Com o tempo você aprenderá a pensar na melhor roupa enquanto atende ao telefone, falar com ele enquanto troca de roupa e até a se maquiar enquanto implora que seja na casa dele.

5. Não o chame para sair. Vai ter apenas dois trabalhos: o de exprimir sua vontade de sair com ele e o de ser frustrada por um NÃO enorme. Ele não sairá com você para locais públicos. O único canto onde vocês se encontrarão será ou no Motel, ou em alguma casa (dele ou a sua), nunca em ambiente aberto, público. Preciso nem dizer porque né? Ele tem uma namorada, não pode ficar mostrando pra todo mundo a outra. Se quiser almoçar com ele compre a comida e leve pra lá, se quiser ir ao cinema com ele alugue o filme pirata e assista lá, se quiser ir pruma festa com ele... DESISTA.

6. O que os une não é nenhum sentimento, é o sexo. Por isso, não fale de sentimentos pra ele, pois ele mentirá e dirá que gosta de você. Mas lembre-se de que no final do sexo, ele se arrumará, voltará para casa e dormirá com a mulher, enquanto você terminará a noite sempre sozinha. Simplesmente aproveite o momento sem pensar no que ele poderá estar sentindo por você.

7. Tenha sempre assunto para conversar. Passada a fase da conquista onde ele dará em cima de você, dirá que está afim, cantará você até você ficar roxa de vergonha e o seu útero escorrer por entre as suas pernas, o assunto declinará de tal forma que pode chegar ao simples diálogo: “Vamos hoje?”, “Vamos!”, “Onde?”, Aqui!”, “Certo, já estou indo.”, “Até mais.” Fale sobre a conjuntura sócio-econômica-político-ambiental mundial, sobre as fofocas dos famosos, sobre a novela das oito, sobre o seu corte de cabelo, sobre novas posições na cama (essa é infalível, sempre gera diálogos calorosos e prolongados), sobre a morte da bezerra... Só não deixe que o assunto caia naquele estágio monossilábico irreversível.

8. Saiba quais dias são os seus. Finais de semana nem pensar. Final de semana são os dias mais sagrados dos relacionamentos oficiais. As atividades extracurriculares (entenda-se por isso você) são praticadas durante os intervalos na semana, tipo hora do almoço, quando ele sai do trabalho e só tem aquela horinha pra ir em casa, comer alguma coisa e voltar. Pois é nessa hora principalmente que você deve prestar mais atenção ao seu celular. A chance de ele tocar é imensa. Os motéis nessas horas lotam. É a famosa hora da escapadinha. Finais de semana você procure espairecer, pensar na vida, só não pense nele, pois ele com certeza não estará pensando em você, estará nos braços da oficial.

9. Saiba apagar seus rastros. Se você quiser que essa vida de ser a outra perdure por muito tempo, saiba deixar o rapaz aparentemente tão intocado como se nunca ele tivesse estado com você. Por isso, nada de chupões. É uma marca chata que demora a sair e que provavelmente acabará com o relacionamento dele, pois algo daquele tamanho no pescoço da pessoa com certeza não foi causado por uma picada de muriçoca. Se você puder usar o perfume dele é ainda melhor, pois não misturará os cheiros e a namorada dele não desconfiará daquele novo cheiro na camisa dele. Batom na camisa? Aff, essa já está super ultrapassada. Enfim, não deixe vestígios, seja precavida.

10. Regra de ouro: não se apaixone sobre hipótese alguma. Se você foi escolhida para ser a outra então reconheça seu lugar e se comporte como tal. Tenha sempre em mente que a outra pessoa não largará o relacionamento estável dela para ficar com você. Se o cara lhe paquerou e conseguiu fazer com que você aceitasse o fato de ele ter namorada e ainda assim se relacionar com você, então ele vai aproveitar ao máximo a situação de ter dois relacionamentos. Além do mais, se você já está sendo a outra, imagine se ele terminasse o namoro dele para ficar com você... o que a faz pensar que ele não teria uma outra outra enquanto namora com você? Exatamente, não se apaixone, fique nesse relacionamentozinho medíocre sem futuro, mas não nutra nada por ele, pois ele não presta. E você como toda mulher que se preze quer um relacionamento estável, casar, ter filhos... Aproveite apenas para suprir sua carência enquanto procura um outro que tenha juízo.

E é isso. Ser a outra é um exercício constante de auto-anulação. Ligue o modo "sou um objeto sexual apenas" e siga em frente sempre com as 10 regras em mente.

domingo, 11 de julho de 2010

Sobre o fim inadiável


1º final

E um dia, dirigindo de volta pra casa tarde da noite após ter feito hora extra, ela parou no sinal à espera de a luz verde se acender. A rua estava deserta. Olhou para os lados e para o retrovisor para ver se alguém se aproxima. Ninguém. Finalmente o verde acendeu e ela vai tirando o pé da embreagem vagarosamente e pisando no acelerador. Só conseguiu escutar uma buzina alta à sua esquerda e uma luz forte que se aproximava rapidamente... E então a escuridão.

No instante seguinte, ela estava caminhando por um caminho ladeado de flores. Uma paisagem que não saberia descrever nunca, apenas sentir. E foi então que ela sentiu a liberdade pela primeira vez em anos. E aquela sensação invadiu o seu ser e ela se arrependeu por nunca ter experimentado aquilo na vida. E chorou feito um bebê, sem saber nem porque, se era pela felicidade de estar vivendo finalmente aquilo, ou se pelo arrependimento de sempre ter postergado vivenciar tal momento.

Do outro lado da vida, um grupo de médicos decidia o destino da paciente com morte cerebral que havia chegado na noite anterior após ter sofrido um grave acidente de carro.

2º final

E um dia, dirigindo de volta pra casa tarde da noite após ter feito hora extra, ela parou no sinal à espera de a luz verde se acender. A rua estava deserta. Olhou para os lados e para o retrovisor para ver se alguém se aproxima. Somente um mendigo que se aproxima para pedir dinheiro. Ao chegar próximo ao vidro do carro ele mostra sutilmente a arma que carrega consigo e grita para ela sair do carro. E ali mesmo, no meio da rua deserta e fétida da cidade ele a estupra. Ela ainda tenta resistir e gritar, mas ele era bem maior do que ela e mais forte. Durou pouco mais de 10 angustiantes minutos. Mas para ela foi uma eternidade de repúdio e asco.

Foi a primeira vez que ela faltou ao trabalho em toda a sua vida. Não desejava mais sair de casa, tinha pânico, lembrava do rosto do mendigo barbudo entrando nela com brutalidade. E sem sair de casa, pediu afastamento do emprego. Estava só, ninguém estava por ela naquele momento.

Nove meses depois, o fruto daquele estupro nascia. A gravidez foi complicada, o parto também. A criança nasceu prematura com problemas neurológicos e necessitava de cuidados especiais para sobreviver. A mãe não tinha condições financeiras nem psicológicas de tratar daquela criança. Foi triste presenciar aquela cena: o juizado de menores arrancar das mãos daquela mãe considerada insana o único vínculo que a mantinha de pé ainda. Dois dias depois ela desistiu e voou para longe do oitavo andar do seu prédio.

3º final

E um dia, dirigindo de volta pra casa tarde da noite após ter feito hora extra, ela parou no sinal à espera de a luz verde se acender. A rua estava deserta. Olhou para os lados e para o retrovisor para ver se alguém se aproxima. O sinal abriu. E então num impulso não dobrou a esquina em direção ao seu apartamento. Resolveu seguir em frente, rumo ao barzinho onde seus companheiros de trabalho sempre iam. Sempre a chamavam mas ela sempre inventava uma desculpa para não ir. Dessa vez resolveu aparecer. Todos ficaram muito surpresos com a chegada da "Chefe". Foi uma noite maravilhosa para ela. Jamais imaginara que pudesse se divertir tanto. Aliás, era a primeira vez que ela fazia isso em anos. Ousara até beber uns drinks.

Naquela noite, foi para casa acompanhada de um rapaz que conhecera. Todas as mulheres do ambiente estavam de olho nele, era o rapaz mais bonito que ela já vira na vida. Brilhantes olhos verdes, um rosto com uma barba por fazer que o deixava mais charmoso, bem vestido. Era um sonho. Ainda sob efeito dos drinks ela se deixou levar pelo desejo contido durante tempos. Se entregou para ele e transou como se fosse a última coisa que faria na sua vida. Como ela conseguira adiar por tanto tempo aquele desejo de liberdade dentro de si?

No outro dia, ao acordar, não se lembrava de muita coisa, mas sentiu falta de uma presença ao seu lado. Levantou-se, foi até a cozinha e lá estava ele, o deus grego da noite anterior. Então não fora um sonho. Estava vivendo o melhor momento da sua vida. Mal sabia ela que o rapaz nunca mais voltaria a aparecer e que poucas semanas depois do ocorrido, começaria a emagrecer rapidamente. Fez uns exames e na consulta com o médico só conseguira escultar duas palavras antes de o seu mundo desabar: HIV positivo.

4º final

E um dia, dirigindo de volta pra casa tarde da noite após ter feito hora extra, ela parou no sinal à espera de a luz verde se acender. A rua estava deserta. Olhou para os lados e para o retrovisor para ver se alguém se aproxima. Ninguém. O sinal acendeu e ela seguiu pra casa. Chegando lá olhou para as correspondências sobre a mesa. Cartas dos seus pais, contas a pagar. Cansada ela estirou seus pés sobre a mesinha de cabeceira. E voltou a tossir. Começou a estranhar essa tosse persistente que ela sempre sentia ao chegar em casa. Fazia mais de um mês que isso acontecia. Logo tomou um remédio e foi dormir. Depois marcaria um médico, agora estava sem tempo para aquilo.

No outro dia, voltou a tossir, dessa vez no trabalho. Sua garganta doía muito. Naquela noite em casa, tossiu sangue vermelho vivo. Na mesma hora começou a sentir um cansaço e uma dificuldade de respirar. Entrou em pânico. Ligou para a Emergência. Em meia hora estava no hospital mais próximo. Após exames, o médico sentenciou: "Câncer de Pulmão, você tem mais 6 meses de vida."

E foram os seis meses mais bem vividos por ela. Voltou para casa dos seus pais, reencontrou seus amigos de infância e da época do colégio, namorou o rapaz mais bonito da turma por quem sempre fora apaixonada, realizou seu sonho de viajar para África, doou parte da sua fortuna para empresas beneficentes, patinou no gelo, recebeu flores, deu gargalhadas, comeu sorvete, caminhou na praia de mãos dadas... foi feliz. Nos últimos dias de vida, ao perguntarem sua idade ela respondeu: 6 meses.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sobre o eterno adiar


“Com certeza teria tempo depois.” Era esse o pensamento dela a maior parte do tempo, desde que completara 15 anos e resolvera ingressar numa difícil faculdade pública de sua cidade.

Começou tentando passar na tal faculdade. Estudava dia e noite, de domingo à domingo, faça chuva ou faça sol. Nunca foi de sair à noite para festas e o fanatismo pelos estudos fez com que ela se distanciasse dos colegas de sala, dificultando ainda mais sua vida social. Durante as viagens os livros sempre a acompanhavam. Namorar nem pensar. Porém ela não via naquilo um problema, sabia que estava fazendo o melhor para si, pois depois que passasse com certeza teria tempo pra fazer tudo que não fizera. Infelizmente na sua primeira tentativa de vestibular, apesar dos esforços, não passou. Focara muito no conhecimento e descuidara do psicológico. Resultado: nervosismo, má administração do tempo de prova, choro descontrolado, desastre total.

Foi um baque, mas ela superaria, dessa vez com mais estudos e uma pitada de controle emocional. Foi nessa época que começou a freqüentar o psicólogo para manter sua estabilidade emocional durante a prova. Após outro ano de abdicação e total dedicação aos estudos ela logrou êxito no vestibular. Passara em 54º lugar. Agora sim, teria tempo para fazer tudo que havia abdicado naqueles anos.

Em pouco mais de um mês as aulas na faculdade começaram. O volume de matéria era muito maior do que antes e o tempo para estudar muito menor. Fora isso ainda haviam atividades extras para incrementar o currículo: projetos de pesquisa, projetos de extensão, estágios, monitorias. A instabilidade emocional dela voltou a afetar seu dia-a-dia. Desesperava-se facilmente com a quantidade de coisas a fazer. Devido ao volume exorbitante de estudos, sempre se mantivera distante da sua turma, pois achava que perderia o foco caso se envolvesse com as pessoas da faculdade, afinal eles viviam em festas, bebiam, viajavam, alguns tiravam notas baixas, e não era isso que ela queria para si. Por isso, não tinha sequer um amigo com quem pudesse conversar, confiar segredos, rir.

“Com certeza teria tempo para tudo isso depois.” Voltara a pensar nisso. E assim levou a faculdade. Quando não mais agüentava a pressão que ela se auto impunha corria para o psicólogo e desabafava tudo que tinha em mente. Este era como uma válvula de escape.

Alguns anos nessa luta e, enfim, terminara o curso. A formatura foi linda, sua família estava orgulhosa da filha que se formara no curso mais difícil da faculdade pública mais bem conceituada do país. Ao redor todos eram só alegria, parentes se abraçando, namorados se beijando, amigos relembrando os bons tempos vividos. E ela sentada na sua mesa feliz pela sua conquista. Finalmente teria tempo para escrever a história da sua vida, iria namorar, sair para festas, viajar pelo país, conhecer gente nova, iria desfrutar da vida pela qual se privou todo esse tempo. Era essa a esperança que a movia naquele momento. Nem sequer a sua ausência nas fotos das festas da turma que passaram a ser exibidas no telão lhe causou tristeza.

Já tinha uma pós-graduação em mente ao terminar a faculdade, fora da cidade onde morava com os pais. Acabou se mudando para lá dois meses depois, indo morar sozinha no centro de uma cidade grande. Continuou difícil lidar com o tempo durante a pós. Precisava estudar muito, além de trabalhar e cuidar dos afazeres da casa. Economizava ao máximo o dinheiro para conseguir pagar as despesas. Após o término da pós, arranjou um emprego. Eram 8 horas diárias de expediente. Ela se dedicava ao máximo, trabalhava o seu expediente normal e sempre levava trabalho para casa. Era extenuante sua rotina diária, mas pelo menos estava ganhando bem agora. E pela ótima qualidade de trabalho ela era cada vez mais cobrada pelo chefe.

Em pouco tempo subiu de cargo, aumentando as cobranças sobre si. O tempo lhe era mais raro agora que tinha que gerenciar a vida de milhares de empregados. Chegava em casa todos os dias esgotada, nem férias ela conseguia tirar, pois tornara-se a engrenagem chave que movia toda a empresa, muita coisa dependia dela para funcionar.

Não via seus pais há anos. Sempre marcava a viagem e desmarcava em seguida, pois aparecia algo que a impedia de ir. Nem sequer tempo pra ligar ela tinha. Quando se esforçava conseguia mandar algo pelo correio pra eles. E os anos foram passando...




(Confesso que não terminei a história, tenho vários finais para minha personagem, no próximo post teremos os finais que pensei para ela.)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Carta de um frustrado


E foi então que nos conhecemos. Numa época em que eu precisava de você e você de mim. E rapidamente nos identificamos, gostos semelhantes, interesses convergentes, pensamentos muito próximos. Porém geograficamente bem distantes um do outro. Mas quem liga pra isso? O que importa é o agora, vamos viver o que a vida nos reserva. E assim levamos o relacionamento dos sonhos. Sem cobranças, sem ciúmes, sem brigas. Somente com papos diários. E o que pintasse pra mim estava ótimo, pra você a mesma coisa. Só tínhamos um compromisso: o de sermos um do outro quando a hora nos chegasse. Até lá, continuaríamos nossas vidas normalmente. E isso funcionou. Durante um tempo...

Chegou o dia que todos os meus pensamentos eram seus. E minhas atitudes eram pra você. Meus sentimentos se fortaleceram a ponto de o “viver a vida normalmente” significar “viver a vida com você”. Desejos nasciam e eram reprimidos. O tempo e o espaço eram meus inimigos. Meus compromissos foram ficando de lado, enquanto os seus compromissos foram me deixando de lado.

E as conversas não eram mais as mesmas. Primeiro uma ceninha de ciúmes. Depois uma discussão sem motivos. Constatações pessimistas se firmando numa mente castigada pela vida. O amor nunca é a soma de dois iguais. Foi difícil admitir que a parcela recebida por mim era menor do que a ofertada. E a carência só piorava a situação. O silêncio me fazia sofrer.

Por que não fechar os olhos para a indiferença? Foi o que tentei por um tempo. Até que a Terra completou seu ciclo em volta do Sol e a omissão e o descaso apunhalaram meu coração. Teria que tomar uma decisão. Ou isso continuava e eu me afogava em frustração, ou eu acabava com o que um dia foi perfeito. Não foi fácil seguir em frente. Tentei ser indiferente também. Não consegui por muito tempo.

Tentei outras estratégias. Afastei-me, ignorei, pintei de cão, procurei em outras pessoas você... Nada funcionou por muito tempo. Meu orgulho nem existia mais. Expulsei e deixei você voltar várias vezes pra minha vida. Quando não mais forças tinha pra te expulsar resolvi conviver contigo e reprimir esse sentimento não compartilhado. Foi difícil. É difícil. Será difícil.

Nada disso é do teu conhecimento. Talvez nem do teu interesse. É por isso qie você não me merece. E apesar de eu ainda gostar de você e ainda pensar em você, tiro forças, não sei de onde, para suprimir todo esse sentimento. Não é fácil, mas noto que a cada dia eu estou um passo a mais na sua frente. E você está ficando pra trás.

Dos erros cometidos por mim não sei se extrai o conhecimento certo. Mas superficialidade está sendo a tendência na minha vida. Obrigado por me proporcionar tal aprendizado. Tenho sofrido bem menos desde que decidi assim ser. Boa sorte.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Eu odeio o dia dos namorados - O Retorno


E já que alguns poucos gatos pingados que lêem meu blog resolveram me chamar de mal-amado devido ao último post, aqui vai um post especial para os solteirões no dia dos namorados.

Para quem está solteiro o dia dos namorados é um dia que seria melhor se ele tivesse sido extinto do calendário. Uma data tão doce que chega a ser diabetogênica. Especialmente nesta data as pessoas estão mais carinhosas, mais românticas, acreditando no príncipe encantado, dando bom-dias com sorrisos patéticos estampados no rosto, cantando no chuveiro. Isso as outras pessoas, não você solteiro. Você solteiro acorda tarde no dia dos namorados. Quanto mais rápido o final do dia chegar mais livre da pseudo-felicidade alheia você estará.

Aliás, você acordaria tarde caso a sua vizinha chata não ligasse o som a toda altura com as músicas mais românticas da rádio. Sim, porque no dia dos namorados não se toca outra coisa que não uma música romântica. As músicas de repúdio ao sistema, de conscientização política, estão proibidas neste dia. E todo mundo liga pra rádio pra oferecer aquela música para alguém especial. Os anúncios das rádios são de floriculturas, restaurantes românticos, festas de dia dos namorados. É com isso que você é acordado no dia dos namorados. Começou o abuso.

Depois vem a chatice de ver todos os seus amigos saindo com as namoradas e você ficando em casa. É preferível ficar em casa mesmo, os restaurantes estarão lotados de casais se abraçando e se beijando e comendo, os cinemas estarão lotados de casais se abraçando e se beijando e se comendo... livraris, lanchonetes, barzinhos, shoppings, em todos os cantos eles estarão estragando a visão. E isso só vai piorar a situação crítica em que você se encontra: no auge dos seus 25-30 anos e não arranjou ninguém que lhe suportasse por mais de meia hora. Melhor não pensar nisso.

Você então pede comida pelo telefone, porque afinal, pior que dia dos namorados só o dia dos namorados cozinhando o almoço.

- Alô? Gostaria de pedir uma quentinha por favor.
- Bom dia senhor, nós estamos com uma promoção sensacional. Você pedindo duas quentinhas, uma pra você e outra pra sua namorada, você ganha um refrigerante de 600ml. Vai querer?

Maldito seja o marketeiro dessa marmitaria ‘fia duma égua’!!! Primeiro de tudo, será que alguém em sã consciência vai pedi uma quentinha para si e para a namorada no dia dos namorados? Brochante. Nessa hora você respira fundo e responde educadamente à moça:

- Não, gostaria de pedir só uma mesmo.

Quando na verdade, no auge do abudo de dia dos namorados, você quereria falar:

- Sua jegue, qual parte do “gostaria de pedir UUUMMMAAA quentinha” você não entendeu? Será que vocês da marmitaria tem algum distúrbio mental? Promoção de dia dos namorados numa marmitaria?! Ah, me poupe né minha fia, vá arrumar um namorado vá”

E então desligaria o fone rapidamente antes que pudesse ouvir da atendente da marmitaria que até ela já tem namorado. Abuso continua. É melhor você ir até a padaria e comprar algum salgado, lasanha, qualquer coisa que já esteja pronta. Chegando lá você olha para o balcão. Bolos em formato de coração com escritos EU TE AMO, decoração romântica pelas paredes, atendentes vestidas de vermelho, promoções e mais promoções... Então você vai até o balcão e pede UM salgado com UM copo de suco (ênfase no UM), sem promoção. Intrigada a atendente lhe atende. Você vai sentar e então vem a atendente minutos depois com o seu salgado pronto numa bandeja. Qual não é a surpresa ao ver o brinde de dia dos namorados que a padaria estava ofertando: um chaveiro de um casal se beijando. Abuso novamente.

Volta pra casa e resolve ir ver televisão. Quem sabe consegue voltar a dormir e o dia acaba. Liga a TV e está passando Meu Primeiro Amor. Abuso gigante. Zapeia pelos canais. Programas de namoro, de reencontros familiares, de casamentos. O jornal só passa as floriculturas e shoppings lotados. Os filmes mais melosos do mundo. Até os programas policiais de mortes estão aderindo a causa do dia. Namorado esfaqueia namorada por ciúmes, namorada se suicida ao terminar namoro, pai é morto pela filha que se apaixonou por ele. É demais para qualquer solteiro agüentar isso. Tá amarrado três vezes, em nome de Jesus, sangue de Iemanjá tem poder. E a tarde está se findando quando sua mãe percebe que você não saiu de casa e fala:

- Meu filho, você não vai sair hoje não? Dia dos namorados não é dia de ficar em casa.

Como se não bastasse você se cobrando uma namorada, ainda tem o dia lhe cobrando uma namorada e sua mãe também. Resolve seguir os conselhos dela e termina a noite na balada. Vai pra festa onde todos estão na mesma situação que você, desesperados por um relacionamento. Impossível terminar a noite só. E conhece uma aqui, conhece outra aculá, troca telefones ali... No final da festa, você ficou com várias, pegou o contato de todas. Foi muito bom conhecer tanta gente carente e suscetível. Porém o dia dos namorados acabou. No outro dia, a cobrança que você tinha sobre você desapareceu junto com o dia dos namorados. Então você volta a ser o solteirão sem um pingo de vontade de se relacionar com ninguém... até o próximo dia dos namorados.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dia dos namorados


Para você que é homem, acorda cedo no dia dos namorados, tem toda uma programação arquitetada na cabeça de como será o dia. Vai primeiro lavar o carro, depois toma um banho de 10 minutos, tira a barba e corre pra casa da namorada. Se for mulher, vai ter que acordar mais cedo ainda e preparar todo o arsenal para a chegada do namoradão: depilação total, prancha/escova/alisamento no cabelo (pintar se preciso for), pintar as unhas... tudo isso antes dele chegar.

Ocorre então a troca de presentes. Ele nunca entende as necessidades da namorada e dá uma lingerie vermelho puta que grita "trepe comigo esta noite", um buquê de rosas e um chocolate em formato de coração com os dizeres EU TE AMO. Ela sorri, agradece, dá um beijinho nele e enquanto isso pensa: "Viado! Estou uma gorda baleia, não vou usar isso nunca, porque que ele não deu isso pra mãe dele? E o chocolate? Estou na dieta da VACA (comendo grama) há um mês e esse baitola vem e me dá essa droga de chocolate deliciosa. Jesus me conceda o prazer de emagrecer 10kg pra caber nessa lingerie. Ele quer ver meu cu mastigando essa calcinha, mas desse jeito ela não passa nem na minha cintura. E esse buquê de rosas? Amanhã eles apodrecem, pra quê que eu quero isso? LIXO!" Daí, ela entrega o presente dela pra ele, um kit numa cesta com uma caneca do time predileto dele, um perfume, conjuntinho toalha-sabonete-creme de barbear e uma carta romântica escrita à mão. Ele sorri, agradece, dá um beijinho nela e pensa: "Vadia, gastei fortunas com a lingerie e ela vem e me dá conjuntinho toalha-sabonete-creme de barbear. Com certeza o pai dela ganhou isso em algum bingo para idosos e ela roubou e está me dando. E essa colônia barata? E essa carta? Serve nem pra limpar o cu porque é duro demais e arranha. A única coisa que eu gostei foi dessa caneca do meu timão." Ou seja, não adianta, você nunca acertará o presente certo que o seu namorado quer ganhar. Se você perguntar talvez você acerte, porém quem é que pergunta qual o presente ele quer ganhar? Vai estragar a surpresa. E assim começa o grande dia dos namorados, ambos chateados com os presentes, mas iludidos com o que ainda pode acontecer de bom naquele dia.

E então rumam para o almoço do dia dos namorados. A cidade inteira resolveu se refugiar nos restaurantes. Se o cara estiver tentando agradar a garota ele a leva para o Self-Service. Fila quilométrica, comida gelada, preparada às pressas para suprir a fome insaciável do povão. Se você não for pro Self-Service você vai ter que ter rezado 10 terços e feito uma novena inteira nos 5 dias anteriores pra conseguir um canto pra se sentar e depois que se sentar conseguir um garçom livre pra lhe atender. Você escolhe aquele prato especial do dia dos namorados que custa 169.99 e chora sangue por dentro por causa do preço. Daí vem a pior parte, a espera. Duas horas depois talvez eles estejam preparando o seu prato. Com muita sorte o garçom não errará de mesa e entregará o pedido pro casal certo (são todos iguais). Pronto, agora estão alimentados finalmente.

Depois do almoço, tem aquele cineminha pra vocês ficarem mais juntinhos, poderem namorar um pouquinho escuro, aquele clima romântico... Chegando lá se depara com uma fila filha da puta. Bobagem, o que importa é estar junto de quem se ama. Enfrentam a fila bravamente e na hora de comprar ingressos pro filme Romance Eterno dos Amantes Apaixonados você descobre que acabaram os ingressos e que só tem ingresso disponível para o filme Guerra Infernal Sangrenta. Fazer o quê, já que estavam ali o casal topa assistir ao filme, o que importa é que possam namorar um pouquinho no escuro, estar juntos aquele dia. Entram na sala e se deparam com centenas de casais que tiveram o mesmo azar que você de chegar atrasado. Porém eles pelo menos estão juntos. Depois de 20 minutos de busca frustrada por assentos vizinhos o casal desiste e assiste ao filme distantes 9 cadeiras e 2 fileiras um do outro. O filme era uma chuva de sangue só. A quantidade de sangue jorrado durante o filme era desproporcional à quantidade de pessoas que atuaram nele. Aquele ali nunca ganharia um Oscar. E então o namoro no escurinho vai por água abaixo da pior forma possível, com casais se beijando ao redor e gritos e gemidos (não é isso que vocês estão pensando) de pessoas mortas na guerra do filme.

Ainda tem o jantar do dia dos namorados, será igual ao almoço, com a diferença que demorará mais ainda.

E pra terminar a noite, a passadinha no Motel. Logo na entrada, fila pra entrarem os carros. Está lotado lá dentro, então espere na fila pela sua vez. Parece Drive Thru, faz o pedido, pega e vai embora comer em casa, com a diferença que no motel você come o pedido antes de ir pra casa. E depois da espera você finalmente adentra aquele quarto. O cheiro de Desinfetante com Bom Ar para disfarçar o cheiro de sexo do ar. Sinto pena das arrumadeiras de Motel no dia dos namorados. Elas devem trabalhar muito, precisam fazer a mágica de desaparecer todos os vestígios do casal anterior para o casal precedente vir e aproveitar o fim do dia dos namorados. O casal faz o bem bom em uma hora e as arrumadeiras desfazem tudo em poucos minutos. Imagino elas entrando nos quartos correndo com vassoura, pano de chão, desinfetante, rodo... internamente elas gritam: xô AIDS, xô sífilis, xô herpes, xô DSTs, xô camisinha lotada, xô xô xô... Elas deveriam trabalhar com roupas impermeáveis completamente fechadas, ali se pega vírus até pelo ar. Prefiro trabalhar com radiação. E imediatamente elas correm embora do quarto, pois o próximo casal está chegando pra ocupar. Mas voltando para o fim do dia do casal... finalmente o momento tão esperado, a trepa básica de fim de noite no Motel. Ela doida pra que ele repare na depilação a laser que ela fez naquela manhã, que repare na calcinha engolida pelo cu que ela está usando desde o início do dia (deve estar toda assada certeza), que ele repare em qualquer coisa nela... O máximo que ele faz é tirar a roupa dela rapida e rudemente e soltar as palavras mágicas: GOSTOSA. Pronto! Ambos enlouquecem fazendo amor rapidamente, pois precisam terminar o serviço em 30 minutos (lembrando que a tabela de preços do motel aumenta em datas comemorativas). No final, a calcinha está imprestável para se usar novamente, o ato acaba tão rapidamente como começou e eles se arrumam como podem, pois o dono do estabelecimento já bateu na porta do quarto gritando CINCO MINUTOS. E então eles saem em disparada corredor afora. E a arrumadeira corre quarto adentro.

E assim acaba o lindo dia dos namorados.