sábado, 8 de maio de 2010

O menino da bolha (parte II)

E foi por isso que o menino sentiu cada vez mais vontade de conhecer o mundo ao seu redor. Seis meses se passaram e ele já havia conhecido todos os compartimentos da sua casa várias vezes, sabia onde estava tudo, o formato, o cheiro, a essência... Aquela casa não lhe cabia mais, precisava expandir. Mas como, se facilmente ele pegava fracas bactérias que poderiam a qualquer momento causar uma doença incurável no caso dele e levá-lo ao óbito? Imagine se ele saísse de casa... Para os pais seriam um tormento ao qual eles não estavam dispostos a passar. Estavam imutáveis: “em casa você fica, mas fora de casa você não vai”, diziam eles. Mas o menino tinha, sem saber, uma carta na manga. Sua vontade de viver e sua alegria ao se deparar com o desconhecido era uma arma contra a qual seus pais não poderiam lutar. É duro ter que negar ao filho a oportunidade de ser feliz com tão pouco.

Mais 15 médicos, mais dezenas de exames... Foram estipuladas novas regras: o menino deveria usar máscara, luvas, roupas especiais, boné, óculos escuro, protetor de pele, aparelho para abafar o som nos ouvidos... e só teria direito a 15 minutos semanais fora de casa. E então lá foi o menino para o primeiro passeio fora de casa. Achou que não poderia sentir algo mais forte que o que sentira no jardim de casa, mas se equivocou nesse dia. Sequer saiu da soleira da porta de entrada de casa. Foram os 15 minutos mais rápidos de sua vida. A quem via de fora, ele era apenas um garoto com olhos brilhantes que olhavam de um lado para o outro. Para o menino, aquilo era a mágica dos seus sonhos se materializando. Casas, prédios, buzinas, crianças, grama, carros, semáforo, cachorros, gatos, fios, postes, asfalto, idosos, pássaros, árvores, vento, flores, perfume... 15 minutos é pouco tempo para perceber aquilo tudo. Não entendia como as pessoas conseguiam viver naquilo sem sentir o mesmo que ele sentia. Era tudo muito intenso para ele. Ao final do dia, novas bactérias se instalaram no seu organismo, dessa vez mais fortes, mas ainda tratáveis com os antibióticos especiais. Nada tiraria o brilho daquele olhar, nem mesmo aqueles chatos microorganismos sedentos por ceifar vidas. E o diário cada vez mais repleto de memórias.

E foram precisos mais outros 15 minutos para que ele pudesse se acostumar com aquela paisagem e pudesse caminhar e alcançar novos horizontes. Seus pais ficaram temerosos com toda liberdade que ele estava adquirindo, mas não podiam fingir que não viam vida naqueles olhos outrora tão sem perspectivas. E a confiança entre eles foi estabelecida. O agora homem era obediente, em 15 minutos estava de volta, nunca atrasado ou adiantado. Aos poucos, seus pais foram deixando de lhe acompanhar nas caminhadas. Na verdade, os dias de passeio eram muito mais bem caracterizados como dias de contemplação da paisagem, pois era assim que aparentava. Andavam alguns metros e paravam a fim de contemplar a paisagem pelos próximos minutos que lhe restavam. E lá começou a ir o homem sozinho. E voltava em 15 minutos com o brilho nos olhos e o sorriso no rosto.

Um belo dia, lá foi o homem andar pela rua de trás da sua casa. E foi ali, do outro lado da rua, que ele avistou a mais bela imagem que sua mente poderia formar. Em frente a uma loja de CD’s, uma vendedora ajeitava a placa para colocar na calçada. Não conseguiu tirar os olhos dela pelos próximos minutos. Sentiu uma sensação nova, estranha, boa e ao mesmo tempo ruim. Era uma imagem que ele tentava formar na mente, mas que a todo tempo se mexia e mudava de forma. Ficou admirando aquela moça por alguns minutos. Foi a primeira vez que chegou atrasado em casa. Os pais já estavam ficando preocupados, mas 17 minutos após ter saído de casa, lá vem o homem de volta. Não estampava nada no rosto, senão uma incredulidade. Como poderia haver ser tão formoso, tão delicado, tão sincero em beleza, tão casto? Naquele dia, várias bactérias o levaram à fortes cólicas abdominais, mas seus pensamentos levavam sempre àquele momento. Porém não conseguia imaginar a moça da loja de CD’s, ela simplesmente não criava forma na mente.

Esperou ansiosamente pelo próximo passeio e voltou à rua de trás da casa. Dessa vez não avistou a vendedora. Não sabia o que fazer. Descobriu-se naquele momento uma pessoa extremamente tímida. Nunca havia lidado com outra pessoa que não os pais, alguns parentes. Não tinha amigos pessoalmente, apenas os amigos virtuais do bate-papo. E agora se viu numa situação onde queria manter algo além de uma contemplação de uma pessoa e não sabia o que fazer. Passou 15 minutos sem saber o que fazer do outro lado da rua e acabou voltando pra casa. Prometeu a si mesmo que voltaria lá na outra semana e entraria na loja.

Na semana seguinte, estava ele em frente a loja. Atravessou a rua, a muito custo empurrou a porta da loja de CD’s e entrou. Do lado esquerdo a linda vendedora que passava um pano distraidamente no balcão. Ele correu e foi para o outro extremo da loja, fingir que olhava os últimos lançamentos de... Heavy Metal. Nunca tinha escutado esse estilo de música, mas ali ele estava o mais seguro possível, bem longe dela. O coração batia muito forte, garganta seca). “Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?” A vendedora nem sequer levantara o olhar ainda, fazia seus afazeres calmamente sem se preocupar com quem entrava ou saía da loja. Do outro lado, o homem fingia olhar CD’s, com a mente fervilhando de pensamentos. Começou a notar que suava muito, olhou pro relógio, tinha mais 3 minutos. De repente, notou a vendedora vindo em sua direção. Olhou ao redor e não viu ninguém. Andou pelo corredor paralelo, na direção contrário, com a cabeça baixa e correu porta afora. “Ufa! Imagina se ela chega mais perto.” Foi a primeira vez que chegou em casa adiantado.

Na semana seguinte, na mesma seção de CD’s... Lá estava ela novamente vindo na sua direção. E ele correndo porta afora. O que seria aquilo? Um apaixonar-se? Naquela noite leu bastante sobre paixão e amor na Internet.


Mas essa atitude iria mudar, prometera a si mesmo...

(continua...)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O menino da bolha (parte I)

Era uma vez um menino que tinha nascido com Imunodeficiência Combinada Severa Humana, vulgo Doença da Bolha, qualquer besteirinha causava uma super infecção nele, ou gerava uma super gripe quase incurável, ou uma super alergia, enfim, ele era bastante frágil. Por causa disso, seus pais adaptaram seu quarto para que ele pudesse viver o máximo possível: era tudo esterilizado, as pessoas não podiam manter contato direto com ele, era sempre através de luvas e máscaras, ninguém na verdade podia chegar muito perto, a cama era feita de material antialérgico, bem como seus travesseiros, vestimentas, toalhas, lençóis, até a tinta que cobria as paredes do quarto era especial para não causar danos ao trato respiratório do menino. A cada 4 horas o quarto era limpo para não acumular poeira. A água para o banho era mineral, numa temperatura ideal para o seu corpo, sua pasta de dente era manipulada especialmente para ele com uma quantidade de flúor menor que a da maioria das pessoas, os sabonetes também eram feitos sob encomenda. Sua comida era fervida 3 vezes, ou cozida a ponto de matar toda e qualquer ameaça de bactéria, sem falar de suas restrições alimentares: nada de enlatados, frituras, congelados, era tudo fresco, feito na hora pra não perigar alguma contaminação. A luz do quarto era protegida com pedaços de papel para que não incidissem de forma tão agressiva sobre a pele sensível do menino. As paredes do quarto eram revestidas de chumbo para que nenhum pingo de radiação pudesse atravessá-la, bem como barulhos excessivamente altos que pudessem vir de fora. Era um quarto perfeitamente estéril por dentro, uma verdadeira bolha.


Os pais faziam de tudo para que o menino tivesse a vida mais normal possível, dentro dos rigores estabelecidos pela doença. Diversos professores davam aula diariamente para ele através de vídeos. Além disso, o menino tinha a sua disposição um laptop com Internet super veloz, onde podia navegar e saber de tudo que tivesse ao seu alcance na rede. Quando se sentia só o menino conversava com outras pessoas em bate-papos. Sua diversão era colocar músicas pra tocar no seu som e dançar sozinho. Adorava música. Seus pais, às vezes, dançavam com ele, mas sempre do outro lado da parede de vidro da bolha. Certa vez o menino colocou na cabeça a idéia de possuir um bicho de estimação. Os pais compraram um cachorro e junto com ele uma roupa impermeável para o garoto segurar o cachorro. Na verdade nem dava pra sentir os pêlos do cachorro através da grossa roupa de couro, por isso logo o menino perdeu a vontade de possuir animais. E assim o garoto foi levando a vida.


Através da vidraça fumê do seu quarto ele sempre via as pessoas passearem pela rua, as crianças brincarem nas calçadas, os namorados namorarem nos carros, e ele sempre teve a curiosidade, óbvio, de saber como eram as coisas por trás daquelas paredes chumbadas, atrás daquele vidro estéril, daquela bolha. Foi então que no seu Décio quinto aniversário ele resolveu pedir pra sua mãe para sair de casa para dar uma volta. Foi muito difícil para os pais aceitarem isso, eles sempre argumentavam a doença do filho, sua fragilidade. Como permitir que um garoto, que aos 4 anos de idade teve uma bronquite ao sentir o cheiro de um perfume, saísse de casa? Certa vez, ele pegara uma infecção intestinal por ter engolido ar não esterilizado de dentro da caixa do seu laptop. Seria um absurdo permitir que ele fosse sequer para fora do seu quarto, imagine de casa. Foi muito difícil para o menino agüentar aquela vida por mais tempo, ele tinha tudo que precisava, menos sua liberdade e sua curiosidade saciada de saber como eram as coisas lá fora.


Foram cinco longos anos de luta para convencer seus pais de que ele precisava de um pouco mais de espaço. Foi preciso que todos os seus 15 médicos lhe avaliassem semanalmente durante dois anos para que os pais se convencessem de que ele estava apto para tal feito. Testes oftalmológicos, neurológicos, psiquiátricos, respiratórios, cardiológicos, nefrológicos, gastrológicos e todasasoutrasespecialidadesdamedicinalógicos foram feitos. Todos deram dentro dos padrões da normalidade. Os pais permitiram então que ele saísse do quarto e que caminhasse pela casa, mas que isso não passasse de 30 minutos. Após esse tempo, ele deveria voltar para o seu quarto, voltar a se esterilizar, fazer alguns exames para saber se estava tudo normal e descansar. Isso só seria permitido uma vez por semana.


Então o dia chegou. Vestiu uma roupa qualquer (eram todas iguais, sem detalhes, sem imagens, sem tinta, completamente lisas) e respirou fundo. O rosto dos seus pais era um mister de medo/alegria. O sorriso estampado no rosto do garoto era impagável. Parecia que tinha ganhado 100 bilhões na Mega-Sena. Para ele, nada pagava aquela sensação. A porta de vidro se abrindo e ele passando através do portal. Obviamente os seus pais fizeram com que toda a casa estivesse o mais limpa possível, porém completamente estéril ela não estava. E ele deu o primeiro passo rumo a sua ‘liberdade’.


Imediatamente sentiu na sola dos sapatos a poeira do chão, o vento batendo no seu rosto, o cheiro diferente. Até o gosto na sua boca ficou diferente. E ele foi andando pela casa, com seus pais logo atrás pedindo pra ele tomar cuidado e 5 dos seus 15 médicos de prontidão para qualquer intervenção. Porém, para o garoto ele estava só, num mundo completamente desconhecido e cativante por descobrir, numa terra cheia de tesouros escondidos prontos para serem achados. Desceu as escadas e foi até a cozinha. Ali ele parou e ficou observando detalhe por detalhe daquele ambiente. Copos, talheres, pia, torneira, mesa, pano, fogão, geladeira, prato, prateleira, xícara, pires... Seus 30 minutos acabaram e ele ainda não tinha terminado de observar tudo da cozinha. Podia descrever com detalhes tudo que vira. Mas seu tempo tinha acabado e ele teve que voltar para o seu quarto. Sua felicidade era tremenda. Não se continha em si. Os médicos disseram que ele, durante aquela ‘aventura’, tinha pegue algumas bactérias, mas que eram facilmente tratáveis com fortes antibióticos. No mesmo dia, o menino escreveu cinco páginas do seu diário sobre aquele episódio.


Na semana seguinte, a visita foi até a sala de jantar. Na semana seguinte, até o piano da sala de estar, depois até o hall de entrada, depois até os aposentos dos hóspedes... Cada semana ele ia em um lugar diferente, formava uma imagem diferente na cabeça, sentia uma sensação diferente, uma alegria diferente. E cada semana ele terminava com mais cinco ou seis páginas escritas no seu diário. No dia que ele foi até o jardim foi o dia que ele mais chorou na vida. Foram muitas sensações novas bombardeando ao mesmo tempo. Aquela mistura de cheiros incrível, as cores vistosas das belas flores cultivadas pela sua mãe, aquele vento outonal soprando e trazendo as folhas secas das árvores próximas, o canto dos pássaros invadindo seus ouvidos, a visão de um beija-flor pairando sobre a sua cabeça... Fechou os olhos e pode sentir em toda a sua plenitude, com a alma e com o coração, tudo que se passava ao redor dele. “Pra quê olhos se já me deparei com isso uma vez? Posso muito bem formar essa imagem quantas vezes quiser na minha cabeça. E ela será tão bela quanto o é agora.”


E então, sua ânsia pelo mundo aumentou...


(continua...)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Lembranças de um ano perfeito (parte IV)

Revoltei nessa época e resolvi fazer um negócio que eu sempre tive vontade: coloquei meu piercing. Deu uma piração na minha cabeça e sai de casa um dia com o intuito de voltar com o piercing. Cheguei ao local de aplicação e fiquei lá uma hora olhando as jóias de piercing e escolhendo onde seria. Na língua? No queixo? Na orelha? Resolvi colocar um transversal na orelha. Depois de muito medo, de muito pensar e repensar, criei coragem e mandei a moça colocar. "Não se preocupe, a gente coloca aqui um anestesicozin e não dói nada." Só se for a BUNDA dela que não doeu na hora. Amaldiçoei até a quinta geração da família daquela vaca. Mas tava feito. Agora vinha o mais difícil, chegar em casa e mostrar para os meus pais.

"MEU DEUS DO CÉU? QUEM FOI QUE FEZ ISSO NA SUA ORELHA?! ISSO É COISA DE MARGINAL, VÃO TE SURRAR NA RUA, PODE TIRAR ISSO!!!"

Quase que eu respondo que tinha sido um marginal que tinha me visto na rua e tinha me obrigado a furar a orelha, mas vendo a reação deles achei que não era momento para piadas. Após muita briga, nhé nhé nhé, blá blá blá, eles viram que eu já tinha furado, não tinha mais volta e pronto! Pelo menos isso pra me alegrar, após aqueles bombásticos resultados vestibulescos.

E lá estava eu mais um dia no cursinho, com meu piercing na orelha. Estava do lado de fora conversando com alguns amigos. Eis que surge uma pessoa que eu nunca havia visto na vida, olha pra minha cara e fala:

"TU É BIXO NÉ?"

Não sei em que planeta essa forma de tratar é normal, mas no meu não era assim que se começava uma conversa com alguém que você nunca viu. Vai entender né? Devo ter ficado com cara de "QuePorraÉEssa?NãoEntendi", porque logo ele me falou que estudava no curso que eu quase passei e que eu iria passar também. Passei da cara de "QuePorraÉEssa?NãoEntendi." para a cara "Mentira!FalaSério?". Claro, óbvio, evidente, eu continuei não acreditando naquilo. Melhor não criar esperanças, mas claro, iria no dia da matrícula, vai que dá uma zebra e alguém resolver morrer com cinco tiros na cabeça. Seria sorte demais.

Na mesma noite voltei a entrar na tal comunidade da turma que eu quase fiz parte. Foi então que num dos tópicos eu vi quantas pessoas iriam entrar. Haviam achado pessoas que tinham passado em outra faculdade, inclusive na UNICAMP, UnB, ITA, HARVARD, NASA... Ou seja, se isso realmente fosse verdade talvez eu tivesse ainda alguma chance de disputar uma vaga naquele curso. Foi a deixa pra eu não conseguir mais me concentrar em nada.

Nem estudava, nem ia mais pra aula, não sabia se ria ou se chorava. Uma semana antes da matrícula lá estava eu numa festa. DE FORRÓ!!! Absurdo! E BEBENDO!!! Mais absurdo ainda! Até hoje não sei bem porque estava bebendo, se para comemorar, ou para esquecer um pouco daquele estresse de não saber se ia dar certo ou não. Sei que bebi, e muito. Foi o primeiro porre da minha vida. Vodkazinha. Teve uma hora que ela desceu meio quadrada (não querendo fazer alusão àquela que desce redonda) e começou a baixaria. Meus olhos nessa hora já estavam trocados, o direito olhava pra esquerda e o esquerdo olhava pra direita, tava tudo embassado. E o estômago começou a dar cambalhotas. E o mundo começou a girar numa incrível Roda Gigante. Então me sentei. Foi aí que o mundo começou a girar mais depressa. E a pálpebra começou a cair (ptose?).

E então, como naquelas fontes de praça onde os anjos soltam água pela boca fazendo aquela curvinha, eu vomitei. Foi longe, acertei o salto de uma moça à 15 metros de mim. E a cabeça começou a doer, o mundo começou a girar ao contrário e o vômito saindo. "Dizem que depois que vomita melhora." - pensei. Claro que é mentira, depois que vomitei, vomitei denovo, não com a mesma intensidade, acredito ter atingido apenas 8 metros de distância dessa vez. Uma hora eu sei que me levaram pro carro pra ir simbora. E foi igual à Tele Sena que de hora em hora informa o resultado final do sorteio. De hora em hora em vomitava... na verdade a cada 10 minutos eu jogava alguma coisa pra fora durante o percurso de carro pra casa. E quando eu imaginava que não tinha mais nada pra sair de dentro de mim pela boca, saía. A próstata foi simbora no primeiro vestibular, o fígado no segundo, acho que devo ter vomitado nesse dia meus dois pulmões, baço, bexiga e tireóide.

Cheguei em casa só o Piper chupado, cuspido e pisado. Minha mãe deve ter pensado: "Ou ele está comemorando, ou está enchendo a cara pra esquecer que não passou. Tadinho." Ainda bem que ela pensou isso e eu não escutei uns bons gritos que ela me daria caso não fosse por essa desculpa. Deitei na cama e só no outro dia...

E então, cinco dias depois, lá estava eu com meus documentos em mãos para fazer (ou não) a tal matrícula tão esperada há 4 anos. Levei bem mais do que o necessário: certidão de nascimento (original, xerox autenticada e não autenticada), foto 3x4 (datada, não datada, antiga e recente), histórico escolar, certificado de conclusão do ensino médio, do ensino fundamental e do ensino infantil, carteira de serviço militar, cpf (com xerox), carteira de identidade (com xerox), carteira de trabalho, carteira de habilitação, título de eleitor, cartão de vacinação, cartão do Banco do Brasil, cartão do Itau, cartão das Lojas Americanas, cartão da Renner, cartão do bolsa-família, vale transporte, tiquet alimentação, senha do orkut e do MSN, dentre algumas outras coisas.

E então começou a chamada dos classificáveis. 45 pessoas precisavam serem chamadas, é gente demais. Começou a bater o desespero. "Jupira", daí o povo gritava "FALTOU". E o carinha chamava o nome mais duas vezes e o povo gritava "FALTOU". Foi me dando um aperto, um nervosismo... E comecei a achar graça da putaria. Quem realmente ia se matricular tinha que passar por um corredor onde todo mundo tinha tinta, espuma, confete, pra jogar na gente. E depois o povo saía todo sujo. E chamaram Jupira que faltou, Orestes que faltou, Susete que se matriculou, de um por um o povo foi entrando. Até que uma hora lá...

CARLOTA JOAQUINA - E lá foi ela morta de feliz
PABLO NERUDA - E lá foi ele morto de feliz
............................ (entenda isso como algo que eu não escutei). E foi daí que ele chamou de novo e eu escutei mais claramente: FULANO DE TAL. Era eu, era eu! Daí uma maré de gente me empurrou e os sinos soaram, uma música ao fundo tocou (era Aleluia, aleluia aleluia, aleluiaaaaa), os gritos da multidão (VAI IDIOTA, TÃO TE CHAMANDO!), e quando eu abri um sorriso do tamanho do mundo para expressar toda minha felicidade... tomei tinta na cara, farinha de trigo no olho, puxaram minha cueca, buzinaram uma trombeta no meu ouvido, me empurraram...

Entrei no local da matrícula semi-avatar. Tinha tinta até na alma, farinha até no cérebro. Mas estava lá. Entreguei minha pasta (que mais parecia uma mala com a quantidade de coisas dentro) para a mocinha e ela me deu uns papéis para preencher. Rapidamente e nervosamente preenchi, com medo de errar meu nome, errar meu endereço, colar minha identidade onde era pra colar cpf, colar de cabeça pra baixo, cortar meu rosto da foto de tanto que eu tremia. E ainda veio um povo sem vergonha me oferecer cartão de créditos.

"Vamos lá jovem solicitar o seu cartão de créditos? Você não paga mensalidade até daqui a um ano, só começa a pagar no ano que vem e já recebe o cartão desbloqueado com um crédito de R$1000,00 para gastar. Vamos?"

Burramente caí na besteira de fazer um cartão, mas na verdade eu deveria ter berrado:

NÃO TENHO DINHEIRO, MINHA MÃE TÁ DESEMPREGADA, MEU PAI FUGIU DE CASA COM OUTRA MULHER, NOS ABANDONOU, PASSO FOME, PEÇO ESMOLA, NÃO TENHO HABITAÇÃO, LEVEI UMA SURRA POR ESTAR AQUI, POIS EU DEVERIA ESTAR NO SINAL PEDINDO DINHEIRO PRA CONSEGUIR A JANTA DE HOJE. ME DÁ UM REAL MOÇA DO CARTÃO? MORRA!!!

Não foi bem o que eu disse, até hoje recebo correspondência me cobrando anuidade! ¬¬
Então, peguei meus documentos entreguei para a mulher e ela falou as palavras mais lindas que eu já tinha escutado nos últimos tempos: CADÊ O CERTIFICADO? Ops, entreguei o certificado. Daí ela falou as reais palavras mais lindas: PARABÉNS, VOCÊ ESTÁ MATRICULADO. E então entrei nessa vida lastimável que me encontro hoje... Estranhamente amo muito tudo isso, mas isso é um papo para outra história...

(fim)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Metalinguagem

Primeiro de tudo, esperar a hora certa. Sim, existe hora certa pra escrever. Pelo menos pra mim. Geralmente por volta de 11 da noite pra lá. Se fôssemos fazer um gráfico de Hora do Dia x Inspiração seria algo mais ou menos assim:
Explicação: existe uma taxa basal de inspiração durante todo o dia, é péssimo para se escrever nessas horas, o que vem à cabeça é besteira, não se aproveita. Se eu fosse escrever durante essas horas sairiam receitas de bolo, cartas de amor e resumos de matérias da faculdade. Evito ao máximo escrever nesses horários, faz mal até pro estômago. A partir das 21h, a hipófise começa a liberar ISH (Inspiration Stimulating Hormone, vulgo Hormônio Estimulador da Inspiração) que vai agir no Centro da Inspiração (que tem como outra função atuar nos movimentos respiratórios junto com o Centro da Expiração). O Centro da Inspiração então começa a liberar os neurotransmissores (inspiralina) nas sinapses cerebrais ocasionando um Brainstorm (tempestade de idéias). Pois sim, a partir das 21h, os níveis de inspiralina aumentam exponencialmente até alcançarem o pico máximo, por volta das 5h30m da manhã. Há relatos na literatura de que você pode expandir esse nível para além caso você se exponha à um nascer do sol fenomenal, deitado na grama molhada da sua casa de praia, de frente pro mar, ao lado da pessoa amada. Porém, a janela terapêutica dessa experiência é bem pequena, pois em um milésimo de segundo como esse você pode ter tanto a inspiração para escrever a maior novela Global de todos os tempos, como pode também não controlar o Brainstorm e escrever várias pequenas anedotas sem sentido. Geralmente, me encaixo no horário das 23h às 2h da manhã, nunca alcancei o pico de inspiração.

Segundo ponto: música. Nada melhor do que uma boa música na hora de escrever pra atiçar ainda mais a sua inspiração. Eu falei boa música, não queira escrever uma linda história de drama com amores impossíveis e morte no final escutando Boladona, Tati Quebra Barraco, Mc Serginho e Lacraia, Mulheres Salada de Frutas, e coisas do gênero. No máximo você escreverá um bom conto erótico bizarro com direito a sexo com animais e mistura de fluidos escatológicos (eca!). No meu caso Los Hermanos sempre ajudou, Ana Carolina e Nando Reis também possuem sua parcela de contribuição, dentre outros. Os maiores escritores com certeza estavam escutando alguma coisa quando suas obras foram geradas.

Agora o local. Óbvio que o local para se escrever deve ser meticulosamente escolhido. Escrever no meio da sala de jantar com todo mundo conversando ao redor, o cachorro latindo do lado, a vizinha gritando, o primo pequeno chorando... melhor escrever dentro do banheiro, sentado no trono. Aliás, quem disse que não há poesia na hora de reinar? Eu mesmo já escrevi várias coisas enquanto estava reinando. Também aconselho o isolamento. Já pensou tu escrevendo aquela história que tu acha que está show, perfeita. Daí vem tua irmã e lê atrás de ti e comenta. Daí vem tua mãe e elogia. Teu pai passa e pergunta. Tua vó vem e ri. Ah, dá não né. Histórias precisam serem feitas no silêncio de um ambiente isolado. No meu caso, meu quarto claro, somente com a luz da luminária pra ficar um ambiente mais intimista ainda. Fecha a janela, fecha as cortinas, fecha a porta do quarto, espera a descarga do banheiro parar de fazer barulho (totalmente antipoético), liga o ventilador (o clima da minha cidade/vila exige), e então, com a companhia apenas das baratas que passeiam pelo chão do meu quarto, o negócio flui.

Chegada a hora da inspiração, escolhida a música perfeita, refugiado no local certo, resta apenas o principal: o assunto. Bem, aí é questão de vivência. Se você não vive, não tem do que escrever. Não que o que eu escreva aqui seja totalmente real... nem é... mas se você nunca viveu uma decepção na vida, como vai tentar passar para os seus leitores a angústia de uma? Se você nunca chorou de raiva como vai falar de algo que realmente te enfurece a esse ponto? Se você nunca se apaixonou como vai relatar a experiência de dormir e acordar pensando, de se alegrar com a alegria alheia, de ouvir sininhos e sentir borboletas no estômago quando vê a pessoa? Dizem os especialistas que escrever após uma super decepção amorosa enquanto ainda se está chorando é o ápice do supra sumo do cream de la cream, é muito bom e muitas belas coisas saem da cabeça nesse momento, até novos palavrões. Após adquirir essa bagagem de sentimentos fica bem mais fácil você criar histórias e relatar nelas suas experiências, criando personagens que tem um pouco de você em cada um deles. O tchan consiste exatamente nisto, você emprestar às histórias impressões suas, emprestar aos personagens traços seus, mas sem tirar deles as particularidades que os diferenciam dos demais. Eles são um pouco de você, mas acima de tudo eles são eles. E pronto. Busca algo interessante de se falar e da melhor forma tenta passar o recado para os demais, contando uma história, ou falando sobre, ou descrevendo.

No final o que sair já é algo. Ler muito é sempre bom, ajuda a não errar no português (pecado mortal), ajuda a criar idéias. No mais acho que é só.

Post iniciado às 1:20 da manhã, ao som de Ana Carolina, escrito no meu quarto, cujo assunto me veio à cabeça após ter assistido a 2 episódios de One Tree Hill.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lembranças de um ano perfeito (parte III)

Então eis que o resultado do vestibular não prostático saiu. Novamente em slowmotion:

OOO REEESUUULTAAADOOO SAAAIIIUUU. LIIISTAAA DOOOS AAAPROOOVAAADOOOS DEEE MEEEDIIICIIINAAA...

E claro, mais uma vez meu nome não estava lá. Ai ai ai. Agora era oficial, cursinho mais um ano. Tinha ficado tão próximo, fiquei em 45º classificável. No ano anterior tinham chamado só 39 classificáveis, por isso já fui logo me desanimando. “Manhê, não passei.” Fui pro cursinho pra falar com meu coordenador, pedir o bom e velho desconto, a boa e velha dispensada na matrícula, dispensada nas apostilas, dispensada nas mensalidades, auxílio fome, auxílio busão, auxílio moral, auxílio psicológico, auxílio paciência e auxílio sacocheiodemaisumanonessajoça. Ele só me deu matrícula, mensalidades e apostilas de graça. Fiquei sem meus auxílios. Onde já se viu, talvez fosse por essas carências que eu não passava. E no meio da conversa perguntei a ele quantas pessoas iriam entrar no tal vestibular do Quaselá.

“Na pior das hipóteses entram 40 pessoas, na melhor das hipóteses entram 44.”

Show. Preferia ter ficado em noventésimo nonagésimo nono, vulgo 999º, classificável a ter que ver a 44ª criatura sortuda do universo entrar e eu ter ficado na beirada. Na hora não lembro, mas acho que falei PUTA QUE PARIU bem alto na frente dele, de três alunos da 4ª série e de uma senhora. Senti os olhares reprovadores deles. MORRAM! Quero ver se eles passassem pelo mesmo que eu tava passando. Acho que a partir desse momento comecei a desenvolver um sofrimento mental irreversível.

Imaginai tu atravessar uma BR com 10 faixas e ser atropelado na 10ª por uma mobilete com um pneu furado, uma descarga enferrujada e a 10km/h, mas que te atinge num ponto fatal e te mata. Ou tu fechar a prova de legislação pra tirar a carteira de motorista, fazer uma super baliza perfeita, retorno, passagem de nível, ladeira, pára na faixa pra passar os pedestres e então já no final tu estanca o carro e é reprovado. E daí tu vai ter que fazer mais várias aulas de legislação super chatas, outra prova, pagar um monte de dinheiro, gastar um monte de tempo. É como uma brocha na frente da Juliana Paes. Poisé, foi quase parecido com um décimo sétimo avos do que eu senti. Fazer o quê né? Bola pra frente.

Já tinha voltado à chata e velha rotina de sempre: acorda, estuda (ou não), cursinho, aulas (ou não, confesso que no último ano passei mais tempo fora de sala do que dentro), volta pra casa, entra na Internet, dorme... E eis que uma bela noite, entrei na Internet, no Orkut, e veio um povo me pedir pra entrar numa comunidade. Comunidade da turma que eu QUASE fiz parte, caso passasse naquele vestibular. Era karma, eu devo ter jogado pedra, canivete, lâmina de bisturi enferrujada na cruz, ou devo ter colado chiclete na chuteira do jogador Roberto Carlos no último jogo do Brasil na última Copa do Mundo. E lá estava o povo falando de mim: o primeiro dos últimos a não entrar. MORRAM TAMBÉM!

Foi então que usei do terrorismo. Procurei minha pior foto, uma que eu estivesse bem psicopata, tipo de barba, com olhar maquiavélico, riso sarcástico, uma que expressasse “EuSouRuimECapazDeMatarAlguémPraPassarEmMedicina”. Então singelamente fui num dos tópicos da comunidade e expressei meus belos sentimentos: se eu não passar eu mato alguém pra pegar a vaga. Finalizei a frase com um belo sorriso (=D) e saí da comunidade. Tentei não pensar mais naquela esperançazinha que teimava em não ir embora. Mas algo estava reservado para mim no final do túnel. Se eu joguei pedra na cruz foi uma pedra sem pontas, com contornos arredondados e que não atingiu ninguém, talvez tivesse atingido Judas pouco antes de ele se enforcar, nada mais.

(continua...)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lembranças de um ano perfeito (parte II)

Uma semana depois estava eu fazendo outra prova de vestibular, essa sem muitas emoções, sem próstatas escorrendo, sem esquecimentos e apagões. Uma semana depois desta saiu o resultado da primeira (a da próstata escorrendo). PASSEI! Claro, depois daquele sufoco, alguém lá em cima reconheceu meu esforço, sentiu pena da pobre criatura sem próstata, sem documentos, sem celular (sem vida, caso eu perdesse essa prova).


Na semana seguinte, a segunda fase do vestibular (sim, o da próstata). E o pensamento era sempre o mesmo: não querem que eu passe, aquele sufoco foi alguém me botando pra trás, mas eu sou melhor que isso e vou passar só de mal. Fiz minha prova tranqüilo. Estava escrito, era o meu ano, era minha vez, sentia isso.


Minha barba e meu cabelo nesta data já completavam um mês, a coisa mais terrível no mundo. O povo tinha medo já de me barrar nas provas, eu era praticamente o dono da gangue que ia invadir o local caso algo não saísse como eu queria. Até dinheiro as pessoas começaram a me dar nas ruas sem eu pedir. E elas corriam. E a coceira? Nessa época algum ácaro já devia ter instalado sua habitação na minha barba. Mas paciência, agora que tinha passado o primeiro mês, faltava outro.


E o resultado do segundo vestibular (o que não era o da próstata) saiu. Fiquei alegrão, tinha feito uma pontuação bacana, 52 de 60 questões. Uma semana depois anularam algumas questões e eu fiquei com 54. Passaria certeza. Dito e feito. Passei. Nunca tinha feito tantas questões. Porém o vestibular da próstata era o que eu teimei em fazer e que iria passar. Segunda fase do vestibular não prostático veio, fiz tranqüilo também, vamos que vamos, sou eu na fita.


Enquanto os resultados finais não saiam a barba crescia e o cabelo também. Mestre Pai Mei perdia feio. Veio o Natal e tentei bicos de Papai Noel em shoppings, mas não quiseram me dar essa chance, disseram que eu era um pouco assustador pra lidar com as criancinhas. Bom pra mim. Criança boa é criança amarrada, com fita isolante na boca pra não chorar e dormindo. E os ácaros da minha barba se multiplicaram e começaram a me incomodar. Coçava que era uma beleza. Passei o ano sem pegar ‘ningas’, senti na pele a desvalorização pelos mais barbados. Acho que é uma causa bem desfavorecida e que merece total apoio.


E o dia do resultado chegou, era agora que eu aparava a barba e cortava o cabelo logo no 0. Tensão. E de repente o tempo começou a andar em slowmotion (leiam em slowmotion).


OOO REEESUUULTAAADOOO SAAAIIIUUU. LIIISTAAA DEEE AAAPROOOVAAADOOOS. MEEEDIIICIIINAAA. CAAARAAALHOOO OOOLHAAA OOO MEEEUUU NOOOMEEE...


Mentira, não tinha meu nome! Lasquei-me feio. Como minha próstata ainda estava em regeneração por ter escorrido pelas minhas pernas dois meses antes, o que escorreu dessa vez foi o fígado. Alguém não queria que eu fizesse aquele vestibular, eu insisti, vai ver esse alguém queria me poupar daquela decepção. E me poupar de criar ácaros na barba. A única alegria que tive aquele dia foi por tirar aquela mata da minha cara. Pior era explicar para o povo que eu tinha tirado a barba e cortado o cabelo, mas que não tinha passado no vestibular.


- Ow, que pena, não deu certo dessa vez, mas ano que vem vai dar com certeza.


Querem uma dica? Digam qualquer coisa menos isso. Eu sei que foi uma pena, eu sei que não deu certo, não precisa você repetir. E dizer que vai dar certo ano que vem? Após 4 anos fica sem graça ouvir a mesma coisa. Ao invés disso digam:


- Caralho! Vamos beber até virar as pernas pra esquecer essa merda. Eu pago tudo. E pode trazer a camisinha que eu vou pagar duas prostitutas belgas pra você. ‘Bora’ viver de vender miçangas na praia? Essa vida de estudar não dá certo não, vamos virar hippies. Vender água de côco por aí. Viver do que a natureza nos oferecer.


Com certeza é assim que eu gostaria de receber os pêsames por não ter passado no vestibular e por ter que passar mais um ano na droga do cursinho. Paciência, nem todos estão preparados pra entender o que se passa a cabeça de quem leva bomba vários anos seguidos. E pra mim nem tudo estava perdido, tinha o outro resultado que eu tinha ido bem. Vamos esperar e torcer, tem que dar certo.


(continua...)

terça-feira, 13 de abril de 2010

Caixinha de Grubs Grubs


Criança nasceu, família humilde, sem muitos recursos, moravam de aluguel, casa pequena, pais trabalhadores, esforçados. O pai prometeu à criança: meu filho, não temos condições de lhe dar um presente todo ano, mas prometo que juntaremos o dinheiro todo ano e a cada 5 anos você escolherá um presente e nós lhe daremos. Pronto.

A criança nasceu saudável, APGAR 10, comia de um tudo, até pedra se dessem, calmo. O tempo foi passando e o menino fez 5 anos. Pai dele chegou pra ele:
"Meu filho, é chegado a hora do seu primeiro presente, o que você quer ganhar de presente?"
"Papai, eu quero uma caixinha de grubs grubs."
Lá foi o pai do menino procurar o presente da criança. Foi num shopping famoso da cidade, nas três lojas infantis de lá e não achou. Para não chegar em casa sem nada nas mãos trouxe um super carrinho vermelho 5 marchas de controle remoto com alcance de 50 metros que subia pelas paredes. O menino adorou o carrinho, parecia pinto no lixo, porém o pai ficou meio decepcionado consigo por não ter achado a caixinha de grubs grubs.

Mas o tempo não pára, a criança foi crescendo, era bastante esforçado na escola, não era o melhor da sala, mas sempre passava direto, era um orgulho. E os 10 anos então chegaram. Lá foi o pai novamente:
"Meu filho, mais um presente, 10 anos, uma década. Estou muito feliz. O que você quer ganhar de presente dessa vez?"
"Papai, eu quero uma caixinha de grubs grubs."
Lá foi o pai novamente. Foi ao mesmo shopping procurar, mas lá continuava sem ter. Foi ao centro da cidade procurar nas centenas de lojas de lá. Foi a 10 lojas diferentes, mas não conseguiu encontrar a caixinha de grubs grubs. Para não voltar com as mãos vazias comprou um super jogo didático do Show do Milhão com 500 perguntas níveis Fácil, Normal e Difícil. O menino foi à loucura com o presente. O pai passou o dia sem comer, triste por não conseguir satisfazer o desejo do seu filho.

Veio a pré-adolescência, fase complicada para a maioria das pessoas, não para o menino. Era educado, gentil, prestativo, um sonho. E os 15 anos, data importante para todos. Lá foi o pai do menino já tenso com a resposta do filho.
"Papai eu quero uma caixinha de grubs grubs."
Dessa vez o pai foi procurar fundo. Shopping, centro da cidade, bazares, lojas chinesas... NADA. Lá vem novamente o pai decepcionado com a coleção de livros da moda: um domador de dragões que tinha poderes mágicos e que lutava contra o bruxo malvado pra salvar as pedras de luz do castelo encantado. O menino ficou fascinado, leu tudo em uma semana, o pai passou 5 dias de luto.

Finalmente a adolescência, aquela tensão dos pais ao verem seus filhos ganhando cada vez maior independência, primeiros namoros, fase de auto-conhecimento, fase das revoltas. Para os outros. O menino se desenvolvia cada vez mais bonito, mais educado, mais inteligente. Era o genro que toda sogra pediu a Deus. Era alto, usava uma barba ralinha que chamava atenção das garotas, junto com aquele físico. Apesar de ser o mais bonito da turma, não ficava com muitas garotas, era mais de namorar. Cada vez mais os pais se orgulhavam do filho que haviam criado. 20 anos, duas décadas de vida. E a lenga lenga de sempre.
"Papai eu quero uma caixinha de grubs grubs."
O pai saiu ensandecido de casa, prometeu só voltar quando encontrasse o presente do filho. Não houve uma loja sequer da cidade que ele não tivesse ido ou ligado. Desesperado, voltou pra casa no final do dia, com a cara de derrotado, mas com uma moto vermelha novinha. O filho montou logo em cima da moto e foi dar uma volta, enquanto o pai se derramava em lágrimas decepcionado.

Veio a faculdade, novos amigos, novas experiências, novos horizontes. E o menino, agora um homem, cursava a faculdade de Engenharia Mecânica. Gostava do que fazia, era o primeiro da turma. Nas festas da faculdade não bebia, não saía ficando com todas as meninas (que por sinal vinham implorar pra ficar com ele). Foi numa dessas festas que ele conheceu sua primeira namorada. Paixão à primeira vista. Era o casal mais perfeito que se possa imaginar. E os 25 anos chegaram. Já sabem né?
"Papai eu quero uma caixinha de grubs grubs."
Dessa vez o pai foi buscar fora do país. Buscou na Internet, site de produtos americanos, com fretes caríssimos, pediu pra amigos que moravam na China, Japão, Índia, Paraguai. Já sabem né? Nada. O pai já não tinha mais cara pra chegar pro menino com um presente diferente. Dessa vez, um carro, zerinho, com vidros e trava elétrica, alarme, seguro pago. Ia passar aproximadamente 3 anos pagando. Imediatamente o menino pulou no banco da frente pra dar uma volta no carro e mostrar pra sua namorada.

E então veio a formatura, aquela festança, muita emoção, fase de realização. Os pais não poderiam estar mais orgulhosos do filho. Depois da formatura o trabalho. O homem era bom no que fazia, não faltava emprego pra ele. Conseguiu trabalho na melhor empresa de máquinas da cidade, fornecia peças para todo o país. Ganhava uma boa quantidade de dinheiro. As finanças da família foram melhorando, as condições de vida melhoraram. E as 3 décadas do homem chegaram...
"Papai eu quero uma caixinha de grubs grubs."
A família agora era uma das mais ricas da cidade onde moravam. O pai comprou uma viagem ao redor do mundo. Por onde ele passou ele procurou pela caixinha de grubs grubs. África, Oceania, Ásia, Europa, Américas... após chegar de viagem, tristonho, o pai levou o filho para a casa de serra da família. Lá, no lago artificial que eles mandaram construir, estava a lancha que o pai havia comprado para o filho. Os olhos dele brilharam de felicidade, os olhos do pai brilharam de lágrimas de decepção.

E então veio o casamento. Época de promessas, votos de felicidade, compromissos mais sérios, fidelidade, filhos. Foi o casamento mais lindo de todos da igreja, tanto o noivo quanto a noiva estavam deslumbrantes, hipnotizavam com suas belezas. Até eu que estou contando a história chorei ao vê-los lendo os votos de casamento. Dois meses depois sua esposa estava grávida, de gêmeos. Nove meses depois nasciam os gêmeos, lindos como os pais. E aos 34 anos estava o homem voltando do trabalho no seu carro tunado última geração quando um caminhão atravessou o sinal vermelho e bateu no carro. Momentos de tensão, ambulância chegou, tirou o homem dos escombros, levaram para o hospital mais próximo. Precisou passar por uma série de cirurgias, mas estava se recuperando bem na UTI. E então os 35 anos chegaram e o homem ainda estava no hospital.
"Meu filho, você já está com 35 anos, estou muito orgulhoso de você, só nos deu alegria durante toda a vida, agradeço a Deus por ter me dado você, foi um presente. O que você quer dessa vez de presente de aniversário?" (o pai perguntou, mas estava com medo do que pudesse ouvir)
"Papai... eu quero... uma caixinha... de... grubs grubs..."
O pai não aguentou mais, foi uma vida inteira de procuras, nunca satisfez completamente seu filho. Jamais questionou suas decisões ou seus desejos. Mas dessa vez ele não se conteve.
"Meu filho, passei uma vida inteiro atrás disso, por favor, me responda, O QUE É UMA CAIXINHA DE GRUBS GRUBS?"
"Ow papai... por que o senhor... não disse... antes...? Uma caixinha de... grubs grubs... é..."

PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII